por Flávio Alves Silva
E, no desfecho dos anos 90...
I
O encontro
O encontro
Elisabete inclina um pouco a cabeça para ver o
Ônibus que vai virando a esquina. Em seguida, dá de ombros e senta- se no banco
do ponto e começa a assoviar.
Passados
alguns instantes chega correndo um homem alto e magricela. Esbaforido e
inseguro, ele pergunta:
―Oi com
licença, a senhora está esperando o ônibus faz muito tempo?
A moça, uma
bela morena de estatura mediana e sorriso fácil responde:
―Ah, não!
Acabei de chegar...
―Poxa vida!
Será que já passou o ônibus que vai para o centro da cidade?
―Passou sim.
Não faz nem dois minutos.
Arriando os
ombros por desapontamento, o homem choraminga:
―Caramba, eu
corri tanto!
Elisabete
sorri e diz compadecida:
―Que pena!
Eu também ia pegar esse ônibus. Quando eu vinha
chegando ele
ia saindo. Eu até pensei em correr, dar uns
gritos uns
assovios, sei lá. Mas pra que, né? De que iria adiantar?
O homem
pareceu incomodado e confuso com a resposta. Elisabete continua:
―Sabe, a
verdade é que esses motoristas de ônibus são todos
uns VIADOS
ESTRESSADOS, que adoram ver as pessoas correndo
feito loucas
atrás dos ônibus, gritando e assoviando.
E, as vezes
em que eles esperam ficam sempre com aquela cara de -Elisabete imita uma voz
masculina-
“olha aí,
quebrei o seu galho, hein” ...
―Não, não
senhor, esse gostinho eu não dou pra eles, não.
II
―Mas, a
senhora não disse que precisava pegar esse ônibus? Disse o homem num misto de
inquietação e desânimo.
—Precisava
sim.
—E por que
não correu, já que estava atrasada?
—Não corri
porque, quando se está atrasada não adianta correr, a gente sempre vai chegar
atrasada mesmo e, no fim das contas, eu estou sem pressa. Vivemos num mundo de gente atrasada em todos
os sentidos e as pessoas, hoje em dia, não tem tempo pra apreciar e nem
vivenciar nada. Disse a moça, com o olhar fixado em algum lugar ao longe.
O rapaz
coçou a cabeça e indagou:
―Mas, a
senhora nunca teve um compromisso que não podia se atrasar, de jeito nenhum e
teve que correr, para poder chegar no horário?
Sim, vários.
Mas, nunca saí correndo, não. Respondeu a moça, gesticulando de maneira
descontraída.
E, não me
chame de senhora. Você parece mais velho que eu.
O homem se
desconserta com a resposta e gagueja:
―Mi, mi
discu... mi desculpe: Eu não quis ofender, moça. De verdade, mil perdões.
―Tá tudo
bem. Relaxa, rapaz. Eu não sou Jesus, pra você pedir meu perdão. Disse a moça
sorridente.
―Olha, o meu
nome é Elisabete, mas, me chame de Elisa, por favor. E você, como se chama?
―Meu nome é
Nestoriano, mas, pode me chamar de Nestor, se você quiser. Imitou sem muito
jeito, o rapaz magrelo e pálido
―Tá certo,
Nestor. Falou Elisa, quase rindo com o nome do rapaz.
―Mas, me diz
aí Nestor, com toda essa pressa você só pode estar indo pra casa da namorada.
E, como todo mundo sabe, mulher não gosta de ficar esperando você está aí
toooodo preocupado, né não? Vai levá-la ao cinema? Tenta adivinhar Elisabete
num tom divertido.
―Bem, você
acertou em parte. Realmente estou indo ao cinema, mas vou só.
―Ah, já sei,
vocês brigaram. Indagou Elisa alcoviteira.
Nestoriano
hesita...
III
―É... bem...
quer dizer... pra falar a verdade não tenho namorado ninguém ultimamente.
―Mas é por
que não quer, ou por que não encontra? Insistiu Elisa.
Nestoriano
se encabulou com a pergunta, deu ombros e
desconversou
sem graça:
―E você
Elisa, com essa calma toda, a onde vai?
―Você
acredita em coincidência, Nestor?
Não me diga
que você também ia ao cinema?
―Ia não, eu
vou! Sentenciou, Elisa.
Nestoriano
anima-se um pouco e, mais descontraído, pergunta:
―Legal! E
que filme você vai assistir?
―Ainda não
sei, sempre deixo para escolher na hora, sabe.
―Por quê?
Pergunta Nestor querendo fazer uma “coletividade” e driblar a sua timidez.
―É mais
emocionante, eu acho. Não gosto de coisas programadas, são sempre muito chatas
e maçantes. Decreta Elisa, com uma expressão que não poderíamos considerar como
uma careta, estava mais para um enfado.
―Você acha
mesmo? Indaga Nestor, que era um rapaz extremamente pragmático e metódico.
Assim também o diziam, seus pouquíssimos amigos, e até ele mesmo já se via
assim.
―Claro.
Quando a gente sai para ir ao cinema ou qualquer outro lugar
para se
divertir, tem que ser para se divertir mesmo.
Se a gente
fica perdendo tempo planejando, acaba nem se
divertindo.
Você acredita que eu conheço gente que já sai de
casa com uma
espécie de roteiro da diversão, entre aspas, Nestor.
―Oh, claro
que acredito, Elisa. Eu sou meio assim.
Elisabete
levanta-se e dispara:
IV
―Credo!!...Eu
não consigo imaginar ninguém se divertindo desse
Jeito, com
regras. O melhor da diversão é o acaso é a espontaneidade.
Diversão é
como a paixão, Nestor. Não dá para controlar.
A gente
simplesmente deixa a coisa acontecer...Depois é que a gente vê, se foi bom
ou ruim.
Mas, primeiro a gente aproveita da melhor maneira possível.
Nestoriano
sorri amarelo e senta-se no banco do ponto.
Elisabete
senta-se tranquilamente ao seu lado e pergunta:
―E você, o
que vai assistir?
Nestoriano
olha inseguro pra ela, sentada pertinho dele,
sente a
fragrância suave e extremamente feminina do seu perfume e se dá
conta que
ela uma morena muito bonita também, e isso o desconcerta.
Ele logo
volta a ficar tenso, e, sempre que Nestoriano fica pouco à vontade durante uma
conversa ele tem o “COSTUME” de ficar olhando esquisitamente para o lado
contrário, enquanto a outra pessoa fala.
Titubeando
e, inconscientemente, tentando ser mais agradável ele responde:
―ÉÉÉÉÉ...é...
são...é um, é um romance, um filme de romance, é isso.
Você gosta
de romances, Elisabete? Eu adoro romances...
—Sério, não
parece. E me chame de Elisa, por favor.
V
Sem deixar
de olhar esquisitamente para frente, todo "TRONCHO”, mexendo somente os
olhos, Nestoriano diz sem se virar:
―Oh,
sim...claro...Elisa. Me desculpa, Elisa.
―Gosto. Mas,
acho meio esquisito assistir a um filme romântico, sozinha. Você não acha,
Nestor?
Nestoriano
pende o corpo para frente e começa a movimentar os olhos de maneira rápida e
nervosa. E outra vez sem se virar ele responde laconicamente.
―Acho.
Ficam alguns
momentos em silêncio.
Elisabete
observa Nestoriano como se o estivesse escaneado. Ele, por outro lado, só
consegue balbuciar mentalmente o seu, “mantra habitual” para situações
semelhantes:
―AI MEU
DEUS, AI MEU DEUS!!!
Mais alguns
momentos de silêncio, e ele só pensava:
―Caramba...
que ponto é esse que não aparece ninguém. Será que agora, todo mundo tem carro nessa cidade?!
Nestoriano
já estava começando a sentir falta de ar e, tenso, estava prestes a ter um
“TROÇO"
quando se ouve o barulho de um ônibus chegando.
Elisabete
levanta-se e, puxando Nestoriano pelo braço, diz:
―Vamos
Nestor, é o nosso, é o nosso!!!!
―Verdade,
até que enfim! Responde Nestoriano aliviado.
Elisabete
faz um sinal e o ônibus para. Nestoriano é arrastado para dentro do coletivo e,
antes que se desse conta, já
estavam
sentados no mesmo banco para DESESPERO de Nestoriano.
VI
No caminho, mudança de planos
Elisabete ficou satisfeita por conseguirem
encontrar dois lugares vagos para se sentarem juntos. Ela está sentada
confortavelmente, apesar do banco do coletivo ser forrado com algo que ela não
tinha muita certeza se era plástico reciclado ou couro sintético. Nestoriano,
porém, estava todo torto e sentia-se pouco à vontade. Trocam algumas palavras a
esmo sobre alguns assuntos, sem conseguir avançar em nenhum deles.
Silêncio torturante.
Lá fora, o
dia está mornamente se arrastando e o assunto parece ter esfriado, outra vez.
Nestoriano só pensava em descer no próximo ponto. Mas, ele ainda não tinha
conseguido pensar numa boa desculpa pra dar a Elisabete, que ele já sabia ser
uma moça muito perspicaz. Estava prestes a levantar e descer em qualquer lugar
que fosse, quando o som "SALVADOR" de buzinas rompe a sua azafama
silenciosa.
Elisabete
abri a janela o máximo possível e, colocando metade do dorso pra fora, grita a
plenos pulmões:
―Ô CARALHO!
PARA “CUMISSAÍ”, PORRA!!!
Que coisa!
Até parece que, ficar aporrinhando com essa merda de buzina, vai fazer o
trânsito andar!
Surpreso com
a reação de Elisabete, mas, aliviado Nestor fala:
―É verdade,
Elisa. Esse mundo tá um bocado maluco e cheio de gente esquisita...
―Que nada
Nestor! -diz Elisabete, VOLTANDO PRA DENTRO DO COLETIVO- O mundo está como
sempre esteve, as pessoas é que estão doidas! Mas, deixa isso pra lá... EU NÃO
POSSO e nem quero me estressar.
VII
Mas, mudando
de pato pra ganso... quantos anos você tem, Nestor? Pergunta Elisa, mais calma:
―Vinte e
oito. Responde Nestor, sem nenhuma coragem de perguntar a idade dela.
Pois, eu
acabei de fazer vinte e cinco. Emendou rápido Elisabete.
Viu, como eu
acertei que você era mais velho do que eu. E você, ainda vem me chamando de
senhora. O senhor aqui é você, Nestor. SEU TIOZINHO COCÓTA!
Elisabete
solta uma sonora gargalhada. Os passageiros que estão mais à frente do coletivo
se viram, curiosos, e até o motorista dá uma conferida pelo espelho interno.
Nestoriano
baixa a cabeça, mais uma vez acuado pelo seu COMPLEXO DE AVESTRUZ, olhando para
os lados preocupado, encolhido e sem jeito diz:
―Me desculpa
Elisa! Eu juro que não falei por mal, juro! Eu só te chamei de senhora porque
achei que você fosse casada... Foi só por respeito. Só isso.
Elisabete
desdenha.
―Sei, sei...
―Eu juro,
Elisa. Foi só por educação.
―Foi por
educação ou por respeito? Provoca Elisa, já percebendo o embaraço do rapaz.
―Ué! foi
pelos dois. Quem tem educação tem respeito e vice-versa. É tudo a mesma coisa,
dá no mesmo! “EXPLANA” Nestor, de maneira até surpreendente, no caso dele.
VIII
―Não é não,
senhor! Eu conheço um monte de gente educada, entre aspas, mas, que não tem um
pingo de respeito pelos outros. Você pode ter recebido uma boa educação dos
seus pais, quando criança e mesmo assim se tornar um adulto medonho, mesquinho
e sem nenhuma consideração por ninguém... independente da educação que você
teve. Discursou Elisa.
―Nestor
avança o lábio inferior e meneando a cabeça concorda, como sempre fazia para
evitar qualquer tipo de discussão, por mais simples que fosse.
―É! Eu acho
que você está certa.
―Mas é claro
que eu estou, PÔ!!! Esbravejou Elisa, em tom descontraído. E, apontando pela
janela, ela continua:
―Olha
ali. Olha, toda aquela gente morando e
dormindo na rua. Tá cheio de gente, muito bem-educada, lá no governo que não
tem o mínimo de respeito por essa gente, que vive jogada e esquecida pelas
praças, becos e esquinas.
―Bem, é
verdade. Mas, também não dá pra ajudar todo mundo, né. E outra, o governo não
tem dinheiro pra isso. Mas, o que eu não entendo mesmo é, por que, esse montão
de gente tem de vir morar aqui na rua? Podiam muito bem alugar um quarto ou ir
pra casa de algum parente, sei lá...Avalia Nestor, com ar de quem nunca tinha
pensado sobre esse grave problema social.
Elisabete se
vira e aperta a bochecha dele toda com força.
IX
Nestoriano,
pego de surpresa, grita:
―AAAAAAAiiiiiiiii!!!!!QUÉÉQUEFOI??!!
O que é que
foi, agora?!
QUÉÉQUIFOI!
QUÉÉQUIFOI!
O que foi, é
que, essa gente toda não está aí porque quer “SEU ARROMBADO”! Diz Elisa
possessa.
―0 que é
isso Elisa! O que foi que você disse?!
―AR-ROM-BA-DO!
Eu disse ARROMBADO!!
Mas, como é
que você pode dizer uma coisa dessas, Elisa?
―Ah Nestor,
me desculpa! Eu sei, que a gente nem se conhece direito, mas...
a culpa foi
toda sua.
―Minha
culpa, essa é boa. COMO?!
―Culpa sua,
sim! Como é que alguém, em sã consciência, pode achar que alguém vá viver numa
miséria dessas, por que quer.
Ora! tenha
santa paciência, Nestor! Você me tirou do sério, francamente.
Elisabete se
vira de novo para olhar pela janela, como se nada tivesse acontecido, enquanto
Nestoriano passa a mão sobre a bochecha beliscada e diz, choramingando:
―Caramba!
Que violência!
Onde é que
foi parar toda aquela história de respeito, de que você estava falando agora a
pouco?
―Ah Nestor,
deixa de ser manhoso, vai.
Foi Só
apertãozinho de nada, nem doeu.
―Não doeu,
não doeu...olha aqui então. Quase arrancou um pedaço
da minha
cara, olha aqui...
X
―Tá bom, tá
bom, desculpa... desculpa, deixa eu ver...
Elisabete
segura a ponta do queixo dele, alisa a bochecha beliscada com delicadeza e diz:
―E agora,
seu chorão, melhorou?
Querendo
bancar o engraçadinho ele fala:
―Quase, acho
que mais uma meia hora será o bastante, Elisa.
―Tudo bem,
sem problemas. Meia hora é mais ou menos o tempo que falta para chegar ao
centro. Diz Elisabete, sem rodeios.
Nestoriano,
que havia fechado os olhos, quando Elisabete começou a passar a mão no seu
rosto, fazendo cara de coitadinho, abriu imediatamente os olhos e afastando a
mão dela, diz:
―Não precisa, Elisa, eu só estava brincando.
Já passou, já passou...
Elisabete
afasta-se um pouco e fazendo cara de deboche diz:
―QUÉQUIFOI,
Nestor!!!não gosta de mulher te alisando não, é? Eu hein!!
―Não, não,
não...não é isso não Elisa!
Imagina, é
claro que eu gosto de mulher, imagina.
E o que é
então? Pergunta Elisa com cara de desconfiada.
Nestoriano
tenta se justificar:
—Bem é... é
que, é que o ônibus tá cheio e as pessoas ficam olhando... sabe como é, não
somos casados, nem namorados nem nada.
Com olhar
fulminante sobre o rapaz Elisabete dispara:
XI
―E desde
quando é preciso ser casado ou namorado para se acariciar o rosto de alguém,
Nestor?
—Não... eu
sei, mas, todo mundo fica olhando, imaginando coisas... sei lá. Intuiu
Nestoriano, que era o tipo de pessoa que dava muita importância ao que as
outras pessoas pensavam ao seu respeito, mesmo que nem as conhecesse.
—É mesmo!
-disse Elisabete – E, que tipo de coisas seriam essas?
—Ah! Sei lá,
Elisa! Qualquer coisa mais íntima. Você sabe, as pessoas veem maldade em tudo.
Disse Nestoriano, refém da sua lógica.
—Coisa mais
íntima, né... Retrucou Elisabete.
―É...
Respondeu, Nestoriano, sem muita confiança.
—Tudo bem. -
Continuou Elisabete - Qual a sua religião, Nestor?
—Católica,
por quê? Perguntou Nestoriano, confuso.
―E você com
certeza ia a igreja, quando era mais jovem?
—Ia..., mas,
o que é que isso tem a ver?
—Calma, que
você já vai entender.
—Quero só
ver...
—Quando você
era mais jovem e ia a igreja o padre as vezes não passava a mão na sua cabeça,
no seu rosto?
—Passava sim
e daí?
—Daí que,
nem por isso vocês eram casados ou namorados.
XII
Ah, Elisa!
Você está misturando tudo. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
—Poxa! Você
é mesmo uma porta, Nestor... Uma porta pesada e sem maçaneta, caramba! - diz
Elisabete já sem muita paciência- Bom, melhor deixa pra lá.
―É, é melhor
mesmo! Em qual shopping você vai, Elisa?
—Em nenhum,
ora! Diz Elisa, com um leve franzir de testa.
—UÉ, mas
você não disse que ia ao cinema?
—Ia não, eu
vou! Mas, não é em nenhum shopping, não.
―Vai aonde,
então?
—Vou em
qualquer cinema lá do centro, não gosto de shopping.
―Eu acho o
ambiente meio falido, meio frio, sabe.
Nestoriano
tenta ser engraçadinho, outra vez:
—Meio
frio... Ah, já sei, é deve por causa do ar condicionado.
—Não,
idiota! Imbecil, palhaço... eu tô falando de mesmice. Sabe, todas as vezes em
que eu fui a um shopping center, e foram pouquíssimas vezes, tive a estranha
sensação de estar numa linha de peças para reposição.
Tudo é muito
artificial, muito igual, muito organizado, sei lá... E as pessoas parecem
personagens insossas, saídas de uma telenovela que foi alongada. Você consegue
entender, Nestor?
—Poxa,
Elisa! Você fala cada coisa... Eu nunca pensei nisso. Mas, acho que você está
certa.
—Mas é claro
que estou, PÔ! Repete Elisa, soltando uma gostosa gargalhada.
XIII
Nestoriano
sorri timidamente, estica o pescoço e diz:
—Ih, o meu
ponto é o próximo, Elisa. Tem certeza de que não quer assistir a um filme lá no
shopping?
—Ah, não
obrigada! Mas, divirta-se. Gostei de trocar uma ideia com você, Nestor.
—Também
gostei de conversar com você Elisa. Foi um prazer te conhecer. Você é muito
inteligente e divertida. Mesmo me beliscando e me chamando de
"ARROMBADO", na frente um monte de gente.
Dessa vez,
parece que Nestoriano acertou no tom, pois, ele sorriu graciosa.
―Bom, deixa
eu ir então... Se não passo do meu ponto. Tchau Elisa.
―Tchau,
Nestor. Qualquer dia a gente se tromba por aí.
Elisabete
dá-lhe beijo de despedida e ele, todo corado, vai para a porta de saída do
coletivo. Som da campainha, o ônibus para. Elisabete, por algum motivo, não
olha para trás. Instantes depois o ônibus está em movimento novamente.
Elisabete segura um pouco dos seus longos cabelos entre as mãos e começa a
cheirá-los. Ela se vira para olhar pela janela no instante em que o ônibus
entra por um túnel extenso e mal iluminado. Minutos de penumbra. Alguém se
senta ao seu lado. Quando a luz do dia volta a ser plena Elisabete olha para o
lado e, surpresa, vê Nestoriano sentado ao seu lado. Dessa vez, olhando-a nos
olhos, ele diz:
—Depois eu
vejo, se me arrependo ou não.
Ela segura a
mão dele e os dois sorriem, cumplicies.
XIV
O rebu no cinema
O ônibus
chega ao ponto final. Os dois são os últimos passageiros a descer. Elisabete
guiará Nestoriano pelo centro, já que esse é o seu "HABITAT”.
Elisabete e
Nestoriano estão na entrada de um cinema. olhando os cartazes dos filmes em que
estão em exibição.
—E aí Elisa,
o que vamos assistir?
―Não sei
ainda. Hummmm, deixa ver... que tal esse aqui?
—Ah, não!
Esse não, Elisa!
—Ué?... e
por que não?
—FILME
NACIONAL, Elisa?! Ah, não! por favor, NINGUÉM MERECE!!
―Mas, o que
é que tem de errado com os filmes nacionais, Nestor?
Eles são tão
bons, ou até melhores, que qualquer um desses
filmes
internacionais que passam por aí, fique você sabendo.
―Tá bom,
pode até ser. Mas, eu acho eles tão
parados, tão sem ação.
—Como assim,
parados e sem ação?
—AH, sei
lá.... parados, devagar...PARADÕES...muito diálogo e pouca ação. Não tem nem
EFEITOS ESPECIAIS. Diz Nestoriano, sem muita convicção de que se fazia
entender.
―Mas, espera
um pouquinho aí, Nestor. Você gosta dos filmes com boas histórias, com bons
roteiros, com bons atores ou você só gosta de assistir filmes apenas pelos
efeitos especiais?
—Não, eu
gosto dos dois. Mas, você tem que admitir que assistir filme sem efeitos
especiais é muito chato, concorda?
XV
Elisabete
faz uma caretinha de deboche e provoca:
―Eu sabia
que aquela história de filme de romance era CASCATA, Nestor. Aposto que o filme
da sua vida é a MÚMIA, não é?
Agora é
Nestoriano que faz uma caretinha.
—Não, não é
não! Mas, com certeza é um dos melhores filmes que eu já assisti, FIQUE VOCÊ
SABENDO!
―Hummm, com
certeza você deve ter VIBRADO muuuuuito, mesmo né? Quase um êxtase, não foi?
Tomado por
ataque de inesperado cólera, Nestoriano rebate:
—Ah, se você
quer saber, eu VIBREI messsssmo, e daí?
—Oh, sim,
claro. Aposto até que você GOZOU NA CUECAEQUINHA no final; não foi?
Assustado e
olhando para todos os lados Nestoriano tapa a boca de Elisabete com as mãos e
desesperado diz:
―O
QUÉQUÉISSO, Elisa! Pelo amor de Deus!!! Como é que você pode dizer uma coisa
dessas?! Tá todo mundo olhando pra gente. Tá doida! enlouqueceu?!
Tirando as
mãos dele de cima da sua boca Elisabete, fula da vida, grita:
—SAAAAAAAAI,
PORRRRA!!!!!!!!!!ME SOLTA FILHO DA PUTA DO CARALHO!!!! CARAAAALHO!!!!!AI QUE
ÓDIO!!!!
PORRA!!
Detesto quando alguém tapa a minha boca. Ai, que raiva!! Por que fez isso, SEU
BOSTA??!!
XVI
Nestoriano,
cada vez mais tenso e sem jeito, tenta acamá-la:
―Pssssiu!!!!!calma
Elisa, tá todo mundo olhando pra gente agora... Ai
meu Deus,
que vergonha!
—Vergonha do
quê? Perguntou Elisa, ainda irritada.
―Desses
palavrões todos, você é muito BOCA SUJA, caramba!
―Que boca
suja, que nada, só por que eu falei PORRA, CARALHO, BOSTA E GOZAR?
―Sim! -
responde Nestoriano - e você ainda acha pouco?
E DAÍ??-
intima Elisabete - 0 que é que tem demais? Todo mundo aqui fala porra ou
caralho quando se irrita, e, todo mundo aqui goza e caga.
Nestoriano
fica atônito, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa Elisabete dispara:
―Se bem que,
pensando bem...acho que a maioria aqui não está gozando muito, não..., mas com
certeza, todos aqui cagam. Bom, as mulheres, talvez nem tanto. Mas, os homens
com certeza cagam e muito...
As pessoas
mais próximas ficam espantadas, mas, Elisa não para e com expressão travessa
aponta:
—Olha ali,
olha aquele cara grandão ali...pensa só na criatura que
esse cara
deve soltar quando vai ao banheiro, imagina! Eu tenho um e sessenta de altura,
mas,
se eu subir
num TROÇO desse cara aí fico com mais de dois metros, pode crer.
Nestoriano
põe as mãos na cabeça, desesperado.
—Elisa, meu
Deus, que horror...vamos embora, vamos embora!!!
Ele a segura
pelo braço, mas, ela se desvencilha e grita:
XVII
—ME SOLTA,
PORRA!!!!EU NÃO VOU A LUGAR NENHUM!!!!QUE MERDA!!!
―Mas, a
gente não pode ficar aqui, Elisa. Está todo mundo comentando. Elisabete dá de
ombros, mas, Nestoriano insiste:
―Por favor,
Elisa! Vamos procurar outro cinema. Olha a cara das pessoas pra gente.
—Tô pouco me
lixando e se você quiser, pode ir. Eu vou ficar por aqui mesmo. Os incomodados
que se mudem...
—Por favor
Elisa! Vamos para outro lugar. A gente pode até assistir um filme nacional, um
romance, sei lá...contanto que seja em outro lugar, por favor!
Elisabete
faz pouco caso e diz pirracenta:
—Nananinanão,
vou ficar.
Nestoriano
sem saber mais o que fazer, se ajoelha e unindo as mãos como se fosse orar,
suplica:
―Por favor
Elisa, vamos, por favor...
Fazendo cara
de enfado, Elisa diz:
―Ah, tá bom,
tá bom! Não precisa implorar. Tá me fazendo passar vergonha. Que coisa!!
Nestoriano
levanta-se mais que depressa e agradece:
—Ai graças a
Deus!! Vamos!
―É, vamos.
Mas, não vamos mais assistir a nenhum filme. Toda essa história me encheu,
perdi o tesão. Não quero mais.
—Ué, e vamos
aonde então?
—Vamos ao
TEATRO. Tem um aqui pertinho, se a gente correr
ainda dá
tempo, a peça começa as sete e meia. Você já foi ao teatro antes, Nestor?
―Não, eu
nunca fui. Sempre achei que teatro é coisa pra velho e...
Antes que
pudesse terminar a frase Elisabete já estava puxando-o pelo braço, dizendo:
―Então essa
é a hora. Vamos, depressa!
Antes de
sair Elisabete assovia alto, e quando as pessoas se viram para olhar, ela faz
um gesto OBSCENO e grita: ― “SEUS CAGÃÃÃÃO”!!!! E eles saem correndo. Elisabete
gargalhando sem parar, enquanto Nestoriano apavorado e constrangido, nem
consegue olhar para trás.
XVIII
O monólogo
Nestoriano e
Elisabete chegam ao teatro em cima da hora. Eles mal, têm tempo para ver qual é
a peça em cartaz. Procuram por seus lugares.
—Olha
Nestor, ali nossos lugares, vamos.
—Onde é
Elisa, onde?
—Ali, seu
cegueta!
—Ah,
sim...agora eu tô vendo.
Sentam-se e
Nestoriano pergunta:
―Que tipo de
peça é essa, Elisa?
―É um
MONÓLOGO. Responde Elisa, sem muita paciência.
Nestoriano
faz uma careta e diz:
—Ííííí...Com
esse nome deve ser uma coisa chata à beça.
—Ué, e o que
é que isso tem a ver? Questiona Elisa.
—Você não
disse que a peça é um monólogo?
—Disse sim e
daí?
―Daí, que
monólogo me lembra monótono.
—Deixa de
ser idiota, Nestor! Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Você tá
confundindo O CU COM A CUECA, seu tonto!
—Pode até
ser, mas, mesmo assim eu não gostei desse nome. A gente devia ter ido mesmo era
ver algum filme. Podia até ser um desses filmes nacionais que você, TAAAAANTO,
defende.
Elisabete
perde a paciência e explode:
—Ah Nestor,
quer saber D' UMA coisa... VAI SE FODER, MEU!! Você é muito burro, cara. QUE
PORRA!!!!
―O que é
isso, Elisa!!! Diz Nestoriano, mais uma vez surpreendido pela falta de fleuma
de Elisabete.
—É isso
mesmo! Você me dá nos nervos, Nestor! E fica quieto, que a peça já vai
começar...
XIX
As luzes se
apagam. Silêncio. As cortinas se abrem, no palco um homem que está de perfil,
vestindo uma TOGA bordada púrpura, se vira para a plateia, baixa a cabeça e
começa a falar:
―Então aqui
estou eu; um prisioneiro, aprisionado...
Prisioneiro,
aprisionado em mim mesmo...
INCAPAZ de
me libertar ou escapar de meu algoz mais voraz...Com as mãos atadas...
Minhas mãos,
hoje, que enorme desprezo eu lhes vogo, tão frágeis...
TÃO
incapazes...
TÃO
inúteis...
TÃO
servis...
Oh, minhas
mãos, outrora símbolos de minha juventude...símbolos irrevogáveis de minha
força; viris, concentração de poder...
Em tempos
idos, vicejantes, com que condão tocavam o alaúde...
Com que
facilidade maquinavam os mais logrosos e ardilosos acordes para atrair, com
diabólico sortilégio, as mais doces e ilibadas ninfas das províncias mais
distintas...
Para logo
então, perderem o alaúde, entregando-se com louca azafama à luxúria de seios
túmidos, de coxas fogosas até chegarem ao desejado ORIENTE DA VIDA; ávidas e
frenéticas, pareciam querer TORNAR...
Hoje
decrepitas, ressecadas e maculadas, sem piedade, pela
senilidade...envergonhadas e semimortas recorrem ao ONANISMO, humilhadas e
silenciosas...
AH, TOLAS E
NOSTÁLGICAS...
XX
Não sabem
que o tempo esfriou seus ímpetos, esfacelou cruelmente com dores e incertezas
sua libido, tão inconsequente quanto infantil...
Doentes,
frias e fracas seu o único e derradeiro alento pelo qual, pateticamente,
anseiam espera por vocês no reino de HADES...
SIM; o calor
que anelam ele vos DARÁ, sem dúvida..., mas, será um calor distante, vazio e
findável...diverso dos toques de outrora.
Vão...
vão... vão...POR QUE HESITAM??? Vão...
vão...vão...Hades espera por vocês, PACIENTEMENTE, tocando alaúde...
Tempo.
O ator leva
as mãos a boca, acaricia os lábios e diz:
—Minha
boca...
QUE MAGIA...
Que enorme
magia havia, nos sorrisos falsos que matreiramente forjavas.
Mas hoje,
disforme e vazia, TU não mais sorris?
Tens
vergonha da tua aparência?
Talvez...
FEIA,
MÓRBIDA E MURCHA...
Calada, não
desperta mais em outros lábios, o desejo de possuí-la.
Do seu
hálito fresco e inebriante, nada restou.
Um BAFIO
afugentador, agora reside, amargo; como um castigo...
XXI
Uma solidão
robusta e seca, que provoca erosão e fissuras, tão profundas na alma, que selam
perenemente sua VERVE ONÍRICA, que sempre arrebatou as mais incautas...
Ah, minha
boca... com que sofreguidão buscavas outras bocas; outras línguas, igualmente
atrevidas...
Hoje, AD
NUTUM, refugia-te ante o mais desavisado e inocente fitar...
Hoje, a tua
vergonha é equivalente à tua soberba...
Hoje, tua fuga
se iguala a tua antiga rapina...
Que
diferença, que triste contraste, desse silêncio de agora com a eloquência
dantes.
Há tempos
não emites nenhum som de alegria; acabou-se a pândega e o folguedo...
Acabou-se o
XAMÃ BRANCO de teu sorriso. Restaram apenas alguns poucos pilares, já
escurecidos pelo ETERNO...
Murmuras
algo, quase inaudível...
O que é? O
que é?
Mais alto!
Mais alto!
O que é, O
que é?
Mais alto!
Mais alto!
Ah,
sim...agora entendi é um pedido, uma suplica:
―Thanatos...
Thanatos...
Thanatos...
Thanatos...
Tempo.
XXII
0 homem no
palco com roupa de IMPERADOR vira-se de costas para a plateia.
Tempo.
Em seguida,
volta-se e grita a plenos pulmões:
—ZEEEEEUS!!!
ZEEEEEUS!!!
ZEEEEEUS!!!
Por quê? Por
quê?
Por que,
Zeus?
Por que esse
tormento...por que esse mortificio?
Poderia eu
consumar como FÍDIAS, fez?
Não creio...
Bem sabes,
que não possuo destreza para tal; no máximo de minha capacidade, talvez, um
busto muito rudimentar...
Tempo.
O ator prossegue sua melúria:
―E por quê?
Por que;
castigar-me assim?
Eu, assim
como TU, desfrutei longamente de toda a lascividade possível...
Eu, assim
como TU, fui fracamente mundano...
Eu, assim
como TU, vi o CÉU em fina estampa na face daquelas a quem enleava...
Aaah...eu
também, assim como TU, deixei a dor tempestuosa a alimentar-se vorazmente do
pranto pueril das enjeitadas...
Em suma, se
fui teu ARAUTO mais inconsequente...teu símio mais TEÍSTA e teu discípulo mais
FÚLVIDO...
Por que,
então, TU agora vens, sadicamente, castigar-me e assolar-me, condenando-me com
esse cruel e inominável fardo, da velhice?
Por quê?
Por quê?
Por quê?
XIII
Tu, Senhor
do Universo...ÚNICO; mas que também já foi tantos... tão sábio, tão justo,
assertivo e divino...
Serias TU,
também vingativo?
Poderia ser
TU, Insidioso?
VAIDOSO E VOLÚVEL...
Tempo.
O ator
ajoelha-se lentamente. Instantes depois levanta-se com os braços sobre a cabeça
e, por fim, dá voz a sua EPIFANIA:
―SIM...agora
compreendo...agora percebo da maneira mais insólita, miserável e cruel que me
traístes...
DESGRAÇADO!!!!
DESPOTA
INFAME!!!
Nem LOKI,
seria tão sórdido...
Nem MEDÉIA,
seria tão desatinada...
Nem JASÃO
foi tão vil, quanto Tu fostes...
Zeus!!!
ZEUS!!!
ZEEEEEUS!!!
ZEEEEEUS!!!!
Vou matá-lo com minhas próprias MÃOS!!
0 ator sai
de cena gritando:
―Zeus!
ZEEEEUS!! Apareça Zeus!!!
Zeus! ZEUS!!! ZEEEEEUS!!!!!!!!!!!!
Apareça
Zeus!!!
Aplausos.
As cortinas
se fecham. Elisabete aplaude sentada tranquilamente, como as demais pessoas,
Nestoriano, por sua vez, está de pé aplaudindo e chorando compulsivamente
dizendo em voz alta:
—BRAVO!!!!!...
Bravo!!
Bravo!! Bravo!!
LINDO!!
LINDO!! MARAVILHOSO!!
ISSO FOI
LINDO, DEMAIS!!
As pessoas
ficam admiradas com a reação, até certo ponto, inusitada de Nestoriano.
Elisabete,
também muito surpresa diz:
—Nossa
Nestor! Até que, para alguém que estava debochando, você parece ter GOSTADO
MUITO mesmo.
Nestoriano
empolgadíssimo, dispara:
―GOSTADO??
GOSTADO??
EU ADOREI...
Esse TAL de
monólogo é um cara simplesmente fantástico.
XXIV
Elisabete,
agora confusa e surpresa, olha para Nestoriano que ainda continua de pé
aplaudindo freneticamente e tenta explicar:
―Olha
Nestor, a peça foi boa, mas, monólogo não é o nome do ator... monólogo é um
tipo de...
Nesse exato
instante as cortinas se abrem e o ator volta ao palco para agradecer a plateia.
Absolutamente
INCONTROLÁVEL e sem deixar de aplaudir um só instante e gritando BRAVO sem
parar, Nestoriano sobe ao palco, sob o APULPO da plateia, e começa a
parabenizar o, perplexo, ator:
―MARAVILHOSO,
seu monólogo...foi simplesmente maravilhoso!!
O senhor foi
simplesmente fantástico, fantástico!!!
Sabe, eu
nunca tinha vindo a um teatro antes, mas, de hoje em diante eu prometo que irei
assistir a todas as suas peças, seu MONÓLOGO. QUE INTERPRETAÇÃO!!!QUE
INTERPRETAÇÃO!!!
Quando será
sua próxima apresentação? Onde será? Que maravilha, que talento!!
Dessa vez, é
Elisabete que fica CONSTRANGIDA.
Elisabete,
mais que depressa, sobe ao palco. Cumprimenta o ator, EN PASSANT, e tenta de
todo jeito fazer com que Nestoriano solte a mão do ator, que está aturdido com
essa INVASÃO repentina. Sem outra alternativa, ela dá um outro belo beliscão na
bochecha de Nestoriano que grita escandalosamente:
―AAAAAAAAAAAAAAAI!!!!!De
novo!!!
Enquanto
Nestoriano berra Elisabete aproveita para tapar-lhe a boca, enquanto o arrasta
sob as vaias da AUDIÊNCIA e do olhar curioso e confuso do ator.
XXV
A história do pintinho
Depois de
conseguir sair à duras penas do teatro levando Nestoriano a reboque, já que ele
se recusava a ir embora sem um autografo do ator em sua camiseta, eles param
num barzinho para tomar uma gelada.
Após alguns
goles TRANQUILIZADORES, Nestoriano reclama:
—Pô, Elisa!
Por que é que a gente saiu correndo do teatro, daquele jeito? Não deu nem tempo
de pegar um autógrafo com o seu monólogo...
Elisabete
levanta o copo e ameaça:
―Ah
Nestor... se eu não fosse uma pessoa tão calma e tão controlada e, se, está cerveja
não estivesse tão gelada e tão gostosa...
eu juro... eu juro por DEUS que...AAARRRRRGH!!!!
Elisabete
enche o copo e toma uma boa golada.
Enquanto
isso Nestoriano continua a PENSAR em voz alta:
—MO—NÓ—LO—GO...
que nome mais esquisito... será que é RUSSO?
Monólogo...
Russo...russo...monólogo...hummmm...
É, é
isso...É isso mesmo! Deve ser um nome russo, sei lá. É, só pode ser um nome de
origem russa. Eu não sei falar russo, então só pode ser um nome russo...
O que você
acha, Elisa? Será que MONÓLOGO é um nome russo, mesmo? Elisabete passa os dedos
lentamente sobre a borda do copo e, tentando conter um repentino ataque de
BRUXISMO, com um olhar quase assassino para ele, filósofa:
—Sabe
Nestor...eu acho que eu vou acabar como a história do pintinho sem cu...
—História do
pintinho sem cu? Que história é essa, Elisa?
Enchendo
calmamente os copos Elisabete continua:
―Aquela
pô...o pintinho não tinha cu, um dia foi inventar de peidar e... BUMMMMMM!!!!
Explodiu.
Ah! E antes
que eu esqueça Nestor, um brinde ao monólogo!
—Sim Elisa,
com certeza UM BRINDE PARA O SENHOR MONÓLOGO, o melhor ATOR que eu vi na minha
vida toda.
Eles erguem
os copos brindam e caem na gargalhada.
FIM