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UM BRINDE PARA O SENHOR MONÓLOGO

                                                                                                                                      ...

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

UM BRINDE PARA O SENHOR MONÓLOGO


                                                   
                                                                                                                 
         por Flávio Alves Silva
                                                             
  

E, no desfecho dos anos 90...
                                               
                                                      
                                                            I                             

 
                       O encontro


 Elisabete inclina um pouco a cabeça para ver o Ônibus que vai virando a esquina. Em seguida, dá de ombros e senta- se no banco do ponto e começa a assoviar.
Passados alguns instantes chega correndo um homem alto e magricela. Esbaforido e inseguro, ele pergunta:
―Oi com licença, a senhora está esperando o ônibus faz muito tempo?
A moça, uma bela morena de estatura mediana e sorriso fácil responde:
―Ah, não! Acabei de chegar...
―Poxa vida! Será que já passou o ônibus que vai para o centro da cidade?
―Passou sim. Não faz nem dois minutos.
Arriando os ombros por desapontamento, o homem choraminga:
―Caramba, eu corri tanto!
Elisabete sorri e diz compadecida:
―Que pena! Eu também ia pegar esse ônibus. Quando eu vinha
chegando ele ia saindo. Eu até pensei em correr, dar uns
gritos uns assovios, sei lá. Mas pra que, né? De que iria adiantar?
O homem pareceu incomodado e confuso com a resposta. Elisabete continua:
―Sabe, a verdade é que esses motoristas de ônibus são todos
uns VIADOS ESTRESSADOS, que adoram ver as pessoas correndo
feito loucas atrás dos ônibus, gritando e assoviando.
E, as vezes em que eles esperam ficam sempre com aquela cara de -Elisabete imita uma voz masculina-
“olha aí, quebrei o seu galho, hein” ...
―Não, não senhor, esse gostinho eu não dou pra eles, não.


                                   II

―Mas, a senhora não disse que precisava pegar esse ônibus? Disse o homem num misto de inquietação e desânimo.
—Precisava sim.
—E por que não correu, já que estava atrasada?
—Não corri porque, quando se está atrasada não adianta correr, a gente sempre vai chegar atrasada mesmo e, no fim das contas, eu estou sem pressa.  Vivemos num mundo de gente atrasada em todos os sentidos e as pessoas, hoje em dia, não tem tempo pra apreciar e nem vivenciar nada. Disse a moça, com o olhar fixado em algum lugar ao longe.
O rapaz coçou a cabeça e indagou:
―Mas, a senhora nunca teve um compromisso que não podia se atrasar, de jeito nenhum e teve que correr, para poder chegar no horário?
Sim, vários. Mas, nunca saí correndo, não. Respondeu a moça, gesticulando de maneira descontraída.
E, não me chame de senhora. Você parece mais velho que eu.    
O homem se desconserta com a resposta e gagueja:
―Mi, mi discu... mi desculpe: Eu não quis ofender, moça. De verdade, mil perdões.
―Tá tudo bem. Relaxa, rapaz. Eu não sou Jesus, pra você pedir meu perdão. Disse a moça sorridente.
―Olha, o meu nome é Elisabete, mas, me chame de Elisa, por favor. E você, como se chama?
―Meu nome é Nestoriano, mas, pode me chamar de Nestor, se você quiser. Imitou sem muito jeito, o rapaz magrelo e pálido
―Tá certo, Nestor. Falou Elisa, quase rindo com o nome do rapaz.
―Mas, me diz aí Nestor, com toda essa pressa você só pode estar indo pra casa da namorada. E, como todo mundo sabe, mulher não gosta de ficar esperando você está aí toooodo preocupado, né não? Vai levá-la ao cinema? Tenta adivinhar Elisabete num tom divertido.
―Bem, você acertou em parte. Realmente estou indo ao cinema, mas vou só.
―Ah, já sei, vocês brigaram. Indagou Elisa alcoviteira.
Nestoriano hesita...     

                                             III

―É... bem... quer dizer... pra falar a verdade não tenho namorado ninguém ultimamente.
―Mas é por que não quer, ou por que não encontra? Insistiu Elisa.
Nestoriano se encabulou com a pergunta, deu ombros e
desconversou sem graça:
―E você Elisa, com essa calma toda, a onde vai?
―Você acredita em coincidência, Nestor?
Não me diga que você também ia ao cinema?
―Ia não, eu vou! Sentenciou, Elisa.
Nestoriano anima-se um pouco e, mais descontraído, pergunta:
―Legal! E que filme você vai assistir?
―Ainda não sei, sempre deixo para escolher na hora, sabe.
―Por quê? Pergunta Nestor querendo fazer uma “coletividade” e driblar a sua timidez.
―É mais emocionante, eu acho. Não gosto de coisas programadas, são sempre muito chatas e maçantes. Decreta Elisa, com uma expressão que não poderíamos considerar como uma careta, estava mais para um enfado.
―Você acha mesmo? Indaga Nestor, que era um rapaz extremamente pragmático e metódico. Assim também o diziam, seus pouquíssimos amigos, e até ele mesmo já se via assim.
―Claro. Quando a gente sai para ir ao cinema ou qualquer outro lugar
para se divertir, tem que ser para se divertir mesmo.
Se a gente fica perdendo tempo planejando, acaba nem se
divertindo. Você acredita que eu conheço gente que já sai de
casa com uma espécie de roteiro da diversão, entre aspas, Nestor.
―Oh, claro que acredito, Elisa. Eu sou meio assim.
Elisabete levanta-se e dispara: 

                                                IV


―Credo!!...Eu não consigo imaginar ninguém se divertindo desse
Jeito, com regras. O melhor da diversão é o acaso é a espontaneidade.
Diversão é como a paixão, Nestor. Não dá para controlar.
A gente simplesmente deixa a coisa acontecer...Depois é que a gente vê, se foi bom
ou ruim. Mas, primeiro a gente aproveita da melhor maneira possível.
Nestoriano sorri amarelo e senta-se no banco do ponto.
Elisabete senta-se tranquilamente ao seu lado e pergunta:
―E você, o que vai assistir?
Nestoriano olha inseguro pra ela, sentada pertinho dele,
sente a fragrância suave e extremamente feminina do seu perfume e se dá
conta que ela uma morena muito bonita também, e isso o desconcerta.
Ele logo volta a ficar tenso, e, sempre que Nestoriano fica pouco à vontade durante uma conversa ele tem o “COSTUME” de ficar olhando esquisitamente para o lado contrário, enquanto a outra pessoa fala.
Titubeando e, inconscientemente, tentando ser mais agradável ele responde:
―ÉÉÉÉÉ...é... são...é um, é um romance, um filme de romance, é isso.
Você gosta de romances, Elisabete? Eu adoro romances...
—Sério, não parece. E me chame de Elisa, por favor.

                                            V


Sem deixar de olhar esquisitamente para frente, todo "TRONCHO”, mexendo somente os olhos, Nestoriano diz sem se virar:
―Oh, sim...claro...Elisa. Me desculpa, Elisa.
―Gosto. Mas, acho meio esquisito assistir a um filme romântico, sozinha. Você não acha, Nestor?
Nestoriano pende o corpo para frente e começa a movimentar os olhos de maneira rápida e nervosa. E outra vez sem se virar ele responde laconicamente.         
―Acho.
Ficam alguns momentos em silêncio.
Elisabete observa Nestoriano como se o estivesse escaneado. Ele, por outro lado, só consegue balbuciar mentalmente o seu, “mantra habitual” para situações semelhantes:
―AI MEU DEUS, AI MEU DEUS!!!
Mais alguns momentos de silêncio, e ele só pensava:
―Caramba... que ponto é esse que não aparece ninguém. Será que agora, todo mundo  tem carro nessa cidade?!
Nestoriano já estava começando a sentir falta de ar e, tenso, estava prestes a ter um
“TROÇO" quando se ouve o barulho de um ônibus chegando.
Elisabete levanta-se e, puxando Nestoriano pelo braço, diz:
―Vamos Nestor, é o nosso, é o nosso!!!!
―Verdade, até que enfim! Responde Nestoriano aliviado.
Elisabete faz um sinal e o ônibus para. Nestoriano é arrastado para dentro do coletivo e, antes que se desse conta, já
estavam sentados no mesmo banco para DESESPERO de Nestoriano.                     



                                                    VI
                            
                         
 No caminho, mudança de planos


 Elisabete ficou satisfeita por conseguirem encontrar dois lugares vagos para se sentarem juntos. Ela está sentada confortavelmente, apesar do banco do coletivo ser forrado com algo que ela não tinha muita certeza se era plástico reciclado ou couro sintético. Nestoriano, porém, estava todo torto e sentia-se pouco à vontade. Trocam algumas palavras a esmo sobre alguns assuntos, sem conseguir avançar em nenhum deles.
 Silêncio torturante.
Lá fora, o dia está mornamente se arrastando e o assunto parece ter esfriado, outra vez. Nestoriano só pensava em descer no próximo ponto. Mas, ele ainda não tinha conseguido pensar numa boa desculpa pra dar a Elisabete, que ele já sabia ser uma moça muito perspicaz. Estava prestes a levantar e descer em qualquer lugar que fosse, quando o som "SALVADOR" de buzinas rompe a sua azafama silenciosa.
Elisabete abri a janela o máximo possível e, colocando metade do dorso pra fora, grita a plenos pulmões:
―Ô CARALHO! PARA “CUMISSAÍ”, PORRA!!!
Que coisa! Até parece que, ficar aporrinhando com essa merda de buzina, vai fazer o trânsito andar!
Surpreso com a reação de Elisabete, mas, aliviado Nestor fala:
―É verdade, Elisa. Esse mundo tá um bocado maluco e cheio de gente esquisita...
―Que nada Nestor! -diz Elisabete, VOLTANDO PRA DENTRO DO COLETIVO- O mundo está como sempre esteve, as pessoas é que estão doidas! Mas, deixa isso pra lá... EU NÃO POSSO e nem quero me estressar.

                                              VII


Mas, mudando de pato pra ganso... quantos anos você tem, Nestor? Pergunta Elisa, mais calma:
―Vinte e oito. Responde Nestor, sem nenhuma coragem de perguntar a idade dela.
Pois, eu acabei de fazer vinte e cinco. Emendou rápido Elisabete.
Viu, como eu acertei que você era mais velho do que eu. E você, ainda vem me chamando de senhora. O senhor aqui é você, Nestor. SEU TIOZINHO COCÓTA!
Elisabete solta uma sonora gargalhada. Os passageiros que estão mais à frente do coletivo se viram, curiosos, e até o motorista dá uma conferida pelo espelho interno.
Nestoriano baixa a cabeça, mais uma vez acuado pelo seu COMPLEXO DE AVESTRUZ, olhando para os lados preocupado, encolhido e sem jeito diz:
―Me desculpa Elisa! Eu juro que não falei por mal, juro! Eu só te chamei de senhora porque achei que você fosse casada... Foi só por respeito. Só isso.
Elisabete desdenha.
―Sei, sei...
―Eu juro, Elisa. Foi só por educação.
―Foi por educação ou por respeito? Provoca Elisa, já percebendo o embaraço do rapaz.
―Ué! foi pelos dois. Quem tem educação tem respeito e vice-versa. É tudo a mesma coisa, dá no mesmo! “EXPLANA” Nestor, de maneira até surpreendente, no caso dele.

                                              VIII


―Não é não, senhor! Eu conheço um monte de gente educada, entre aspas, mas, que não tem um pingo de respeito pelos outros. Você pode ter recebido uma boa educação dos seus pais, quando criança e mesmo assim se tornar um adulto medonho, mesquinho e sem nenhuma consideração por ninguém... independente da educação que você teve. Discursou Elisa.
―Nestor avança o lábio inferior e meneando a cabeça concorda, como sempre fazia para evitar qualquer tipo de discussão, por mais simples que fosse.
―É! Eu acho que você está certa.
―Mas é claro que eu estou, PÔ!!! Esbravejou Elisa, em tom descontraído. E, apontando pela janela, ela continua:
―Olha ali.  Olha, toda aquela gente morando e dormindo na rua. Tá cheio de gente, muito bem-educada, lá no governo que não tem o mínimo de respeito por essa gente, que vive jogada e esquecida pelas praças, becos e esquinas.
―Bem, é verdade. Mas, também não dá pra ajudar todo mundo, né. E outra, o governo não tem dinheiro pra isso. Mas, o que eu não entendo mesmo é, por que, esse montão de gente tem de vir morar aqui na rua? Podiam muito bem alugar um quarto ou ir pra casa de algum parente, sei lá...Avalia Nestor, com ar de quem nunca tinha pensado sobre esse grave problema social.
Elisabete se vira e aperta a bochecha dele toda com força.

                                        IX


Nestoriano, pego de surpresa, grita:
―AAAAAAAiiiiiiiii!!!!!QUÉÉQUEFOI??!!
O que é que foi, agora?!
QUÉÉQUIFOI! QUÉÉQUIFOI!
O que foi, é que, essa gente toda não está aí porque quer “SEU ARROMBADO”! Diz Elisa possessa.
―0 que é isso Elisa! O que foi que você disse?!
―AR-ROM-BA-DO! Eu disse ARROMBADO!!
Mas, como é que você pode dizer uma coisa dessas, Elisa?
―Ah Nestor, me desculpa! Eu sei, que a gente nem se conhece direito, mas...
a culpa foi toda sua.
―Minha culpa, essa é boa. COMO?!
―Culpa sua, sim! Como é que alguém, em sã consciência, pode achar que alguém vá viver numa miséria dessas, por que quer.
Ora! tenha santa paciência, Nestor! Você me tirou do sério, francamente.
Elisabete se vira de novo para olhar pela janela, como se nada tivesse acontecido, enquanto Nestoriano passa a mão sobre a bochecha beliscada e diz, choramingando:
―Caramba! Que violência!
Onde é que foi parar toda aquela história de respeito, de que você estava falando agora a pouco?
―Ah Nestor, deixa de ser manhoso, vai.
Foi Só apertãozinho de nada, nem doeu.
―Não doeu, não doeu...olha aqui então. Quase arrancou um pedaço
da minha cara, olha aqui...

                                                 X


―Tá bom, tá bom, desculpa... desculpa, deixa eu ver...
Elisabete segura a ponta do queixo dele, alisa a bochecha beliscada com delicadeza e diz:
―E agora, seu chorão, melhorou?
Querendo bancar o engraçadinho ele fala:
―Quase, acho que mais uma meia hora será o bastante, Elisa.
―Tudo bem, sem problemas. Meia hora é mais ou menos o tempo que falta para chegar ao centro. Diz Elisabete, sem rodeios.
Nestoriano, que havia fechado os olhos, quando Elisabete começou a passar a mão no seu rosto, fazendo cara de coitadinho, abriu imediatamente os olhos e afastando a mão dela, diz:
 ―Não precisa, Elisa, eu só estava brincando. Já passou, já passou...
Elisabete afasta-se um pouco e fazendo cara de deboche diz:
―QUÉQUIFOI, Nestor!!!não gosta de mulher te alisando não, é? Eu hein!!
―Não, não, não...não é isso não Elisa!
Imagina, é claro que eu gosto de mulher, imagina.
E o que é então? Pergunta Elisa com cara de desconfiada.
Nestoriano tenta se justificar:
—Bem é... é que, é que o ônibus tá cheio e as pessoas ficam olhando... sabe como é, não somos casados, nem namorados nem nada.
Com olhar fulminante sobre o rapaz Elisabete dispara:

                                              XI


―E desde quando é preciso ser casado ou namorado para se acariciar o rosto de alguém, Nestor?
—Não... eu sei, mas, todo mundo fica olhando, imaginando coisas... sei lá. Intuiu Nestoriano, que era o tipo de pessoa que dava muita importância ao que as outras pessoas pensavam ao seu respeito, mesmo que nem as conhecesse.
—É mesmo! -disse Elisabete – E, que tipo de coisas seriam essas?
—Ah! Sei lá, Elisa! Qualquer coisa mais íntima. Você sabe, as pessoas veem maldade em tudo. Disse Nestoriano, refém da sua lógica.
—Coisa mais íntima, né... Retrucou Elisabete.
―É... Respondeu, Nestoriano, sem muita confiança.
—Tudo bem. - Continuou Elisabete - Qual a sua religião, Nestor?
—Católica, por quê? Perguntou Nestoriano, confuso.
―E você com certeza ia a igreja, quando era mais jovem?
—Ia..., mas, o que é que isso tem a ver?
—Calma, que você já vai entender.
—Quero só ver...
—Quando você era mais jovem e ia a igreja o padre as vezes não passava a mão na sua cabeça, no seu rosto?
—Passava sim e daí?
—Daí que, nem por isso vocês eram casados ou namorados.

                                               XII


Ah, Elisa! Você está misturando tudo. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
—Poxa! Você é mesmo uma porta, Nestor... Uma porta pesada e sem maçaneta, caramba! - diz Elisabete já sem muita paciência- Bom, melhor deixa pra lá.
―É, é melhor mesmo! Em qual shopping você vai, Elisa?
—Em nenhum, ora! Diz Elisa, com um leve franzir de testa.
—UÉ, mas você não disse que ia ao cinema?
—Ia não, eu vou! Mas, não é em nenhum shopping, não.
―Vai aonde, então?
—Vou em qualquer cinema lá do centro, não gosto de shopping.
―Eu acho o ambiente meio falido, meio frio, sabe.
Nestoriano tenta ser engraçadinho, outra vez:
—Meio frio... Ah, já sei, é deve por causa do ar condicionado.
—Não, idiota! Imbecil, palhaço... eu tô falando de mesmice. Sabe, todas as vezes em que eu fui a um shopping center, e foram pouquíssimas vezes, tive a estranha sensação de estar numa linha de peças para reposição.
Tudo é muito artificial, muito igual, muito organizado, sei lá... E as pessoas parecem personagens insossas, saídas de uma telenovela que foi alongada. Você consegue entender, Nestor?
—Poxa, Elisa! Você fala cada coisa... Eu nunca pensei nisso. Mas, acho que você está certa.
—Mas é claro que estou, PÔ! Repete Elisa, soltando uma gostosa gargalhada.

                                               XIII


Nestoriano sorri timidamente, estica o pescoço e diz:
—Ih, o meu ponto é o próximo, Elisa. Tem certeza de que não quer assistir a um filme lá no shopping?
—Ah, não obrigada! Mas, divirta-se. Gostei de trocar uma ideia com você, Nestor.
—Também gostei de conversar com você Elisa. Foi um prazer te conhecer. Você é muito inteligente e divertida. Mesmo me beliscando e me chamando de "ARROMBADO", na frente um monte de gente.
Dessa vez, parece que Nestoriano acertou no tom, pois, ele sorriu graciosa.
―Bom, deixa eu ir então... Se não passo do meu ponto. Tchau Elisa.
―Tchau, Nestor. Qualquer dia a gente se tromba por aí.
Elisabete dá-lhe beijo de despedida e ele, todo corado, vai para a porta de saída do coletivo. Som da campainha, o ônibus para. Elisabete, por algum motivo, não olha para trás. Instantes depois o ônibus está em movimento novamente. Elisabete segura um pouco dos seus longos cabelos entre as mãos e começa a cheirá-los. Ela se vira para olhar pela janela no instante em que o ônibus entra por um túnel extenso e mal iluminado. Minutos de penumbra. Alguém se senta ao seu lado. Quando a luz do dia volta a ser plena Elisabete olha para o lado e, surpresa, vê Nestoriano sentado ao seu lado. Dessa vez, olhando-a nos olhos, ele diz:
—Depois eu vejo, se me arrependo ou não.
Ela segura a mão dele e os dois sorriem, cumplicies.                                                             


                                              XIV
                                                     

 O rebu no cinema


O ônibus chega ao ponto final. Os dois são os últimos passageiros a descer. Elisabete guiará Nestoriano pelo centro, já que esse é o seu "HABITAT”.
Elisabete e Nestoriano estão na entrada de um cinema. olhando os cartazes dos filmes em que estão em exibição.
—E aí Elisa, o que vamos assistir?
―Não sei ainda. Hummmm, deixa ver... que tal esse aqui?
—Ah, não! Esse não, Elisa!
—Ué?... e por que não?
—FILME NACIONAL, Elisa?! Ah, não! por favor, NINGUÉM MERECE!!
―Mas, o que é que tem de errado com os filmes nacionais, Nestor?
Eles são tão bons, ou até melhores, que qualquer um desses
filmes internacionais que passam por aí, fique você sabendo.
―Tá bom, pode até ser.  Mas, eu acho eles tão parados, tão sem ação.
—Como assim, parados e sem ação?
—AH, sei lá.... parados, devagar...PARADÕES...muito diálogo e pouca ação. Não tem nem EFEITOS ESPECIAIS. Diz Nestoriano, sem muita convicção de que se fazia entender.
―Mas, espera um pouquinho aí, Nestor. Você gosta dos filmes com boas histórias, com bons roteiros, com bons atores ou você só gosta de assistir filmes apenas pelos efeitos especiais?
—Não, eu gosto dos dois. Mas, você tem que admitir que assistir filme sem efeitos especiais é muito chato, concorda?

                                             XV


Elisabete faz uma caretinha de deboche e provoca:
―Eu sabia que aquela história de filme de romance era CASCATA, Nestor. Aposto que o filme da sua vida é a MÚMIA, não é?
Agora é Nestoriano que faz uma caretinha.
—Não, não é não! Mas, com certeza é um dos melhores filmes que eu já assisti, FIQUE VOCÊ SABENDO!
―Hummm, com certeza você deve ter VIBRADO muuuuuito, mesmo né? Quase um êxtase, não foi?
Tomado por ataque de inesperado cólera, Nestoriano rebate:
—Ah, se você quer saber, eu VIBREI messsssmo, e daí?
—Oh, sim, claro. Aposto até que você GOZOU NA CUECAEQUINHA no final; não foi?
Assustado e olhando para todos os lados Nestoriano tapa a boca de Elisabete com as mãos e desesperado diz:
―O QUÉQUÉISSO, Elisa! Pelo amor de Deus!!! Como é que você pode dizer uma coisa dessas?! Tá todo mundo olhando pra gente. Tá doida! enlouqueceu?!
Tirando as mãos dele de cima da sua boca Elisabete, fula da vida, grita:
—SAAAAAAAAI, PORRRRA!!!!!!!!!!ME SOLTA FILHO DA PUTA DO CARALHO!!!! CARAAAALHO!!!!!AI QUE ÓDIO!!!!
PORRA!! Detesto quando alguém tapa a minha boca. Ai, que raiva!! Por que fez isso, SEU BOSTA??!!

                                              XVI


Nestoriano, cada vez mais tenso e sem jeito, tenta acamá-la:
―Pssssiu!!!!!calma Elisa, tá todo mundo olhando pra gente agora... Ai
meu Deus, que vergonha!
—Vergonha do quê? Perguntou Elisa, ainda irritada.
―Desses palavrões todos, você é muito BOCA SUJA, caramba!
―Que boca suja, que nada, só por que eu falei PORRA, CARALHO, BOSTA E GOZAR?
―Sim! - responde Nestoriano - e você ainda acha pouco?
E DAÍ??- intima Elisabete - 0 que é que tem demais? Todo mundo aqui fala porra ou caralho quando se irrita, e, todo mundo aqui goza e caga.
Nestoriano fica atônito, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa Elisabete dispara:
―Se bem que, pensando bem...acho que a maioria aqui não está gozando muito, não..., mas com certeza, todos aqui cagam. Bom, as mulheres, talvez nem tanto. Mas, os homens com certeza cagam e muito...
As pessoas mais próximas ficam espantadas, mas, Elisa não para e com expressão travessa aponta:
—Olha ali, olha aquele cara grandão ali...pensa só na criatura que
esse cara deve soltar quando vai ao banheiro, imagina! Eu tenho um e sessenta de altura, mas,
se eu subir num TROÇO desse cara aí fico com mais de dois metros, pode crer.
Nestoriano põe as mãos na cabeça, desesperado.
—Elisa, meu Deus, que horror...vamos embora, vamos embora!!!
Ele a segura pelo braço, mas, ela se desvencilha e grita:

                                                 
                                                 XVII


—ME SOLTA, PORRA!!!!EU NÃO VOU A LUGAR NENHUM!!!!QUE MERDA!!!
―Mas, a gente não pode ficar aqui, Elisa. Está todo mundo comentando. Elisabete dá de ombros, mas, Nestoriano insiste:
―Por favor, Elisa! Vamos procurar outro cinema. Olha a cara das pessoas pra gente.
—Tô pouco me lixando e se você quiser, pode ir. Eu vou ficar por aqui mesmo. Os incomodados que se mudem...
—Por favor Elisa! Vamos para outro lugar. A gente pode até assistir um filme nacional, um romance, sei lá...contanto que seja em outro lugar, por favor!
Elisabete faz pouco caso e diz pirracenta:
—Nananinanão, vou ficar.
Nestoriano sem saber mais o que fazer, se ajoelha e unindo as mãos como se fosse orar, suplica:
―Por favor Elisa, vamos, por favor...
Fazendo cara de enfado, Elisa diz:
―Ah, tá bom, tá bom! Não precisa implorar. Tá me fazendo passar vergonha. Que coisa!!
Nestoriano levanta-se mais que depressa e agradece:
—Ai graças a Deus!! Vamos!                   
―É, vamos. Mas, não vamos mais assistir a nenhum filme. Toda essa história me encheu, perdi o tesão. Não quero mais.
—Ué, e vamos aonde então?
—Vamos ao TEATRO. Tem um aqui pertinho, se a gente correr
ainda dá tempo, a peça começa as sete e meia. Você já foi ao teatro antes, Nestor?
―Não, eu nunca fui. Sempre achei que teatro é coisa pra velho e...
Antes que pudesse terminar a frase Elisabete já estava puxando-o pelo braço, dizendo:
―Então essa é a hora. Vamos, depressa!
Antes de sair Elisabete assovia alto, e quando as pessoas se viram para olhar, ela faz um gesto OBSCENO e grita: ― “SEUS CAGÃÃÃÃO”!!!! E eles saem correndo. Elisabete gargalhando sem parar, enquanto Nestoriano apavorado e constrangido, nem consegue olhar para trás.
                                                          

                                              XVIII

                                                                 
 O monólogo


Nestoriano e Elisabete chegam ao teatro em cima da hora. Eles mal, têm tempo para ver qual é a peça em cartaz. Procuram por seus lugares.
—Olha Nestor, ali nossos lugares, vamos.
—Onde é Elisa, onde?
—Ali, seu cegueta!
—Ah, sim...agora eu tô vendo.
Sentam-se e Nestoriano pergunta:
―Que tipo de peça é essa, Elisa?
―É um MONÓLOGO. Responde Elisa, sem muita paciência.
Nestoriano faz uma careta e diz:
—Ííííí...Com esse nome deve ser uma coisa chata à beça.
—Ué, e o que é que isso tem a ver? Questiona Elisa.
—Você não disse que a peça é um monólogo?
—Disse sim e daí?
―Daí, que monólogo me lembra monótono.
—Deixa de ser idiota, Nestor! Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Você tá confundindo O CU COM A CUECA, seu tonto!
—Pode até ser, mas, mesmo assim eu não gostei desse nome. A gente devia ter ido mesmo era ver algum filme. Podia até ser um desses filmes nacionais que você, TAAAAANTO, defende.
Elisabete perde a paciência e explode:
—Ah Nestor, quer saber D' UMA coisa... VAI SE FODER, MEU!! Você é muito burro, cara. QUE PORRA!!!!
―O que é isso, Elisa!!! Diz Nestoriano, mais uma vez surpreendido pela falta de fleuma de Elisabete.
—É isso mesmo! Você me dá nos nervos, Nestor! E fica quieto, que a peça já vai começar...

                                             XIX


As luzes se apagam. Silêncio. As cortinas se abrem, no palco um homem que está de perfil, vestindo uma TOGA bordada púrpura, se vira para a plateia, baixa a cabeça e começa a falar:
―Então aqui estou eu; um prisioneiro, aprisionado...
Prisioneiro, aprisionado em mim mesmo...
INCAPAZ de me libertar ou escapar de meu algoz mais voraz...Com as mãos atadas...
Minhas mãos, hoje, que enorme desprezo eu lhes vogo, tão frágeis...
TÃO incapazes...
TÃO inúteis...
TÃO servis...
Oh, minhas mãos, outrora símbolos de minha juventude...símbolos irrevogáveis de minha força; viris, concentração de poder...
Em tempos idos, vicejantes, com que condão tocavam o alaúde...
Com que facilidade maquinavam os mais logrosos e ardilosos acordes para atrair, com diabólico sortilégio, as mais doces e ilibadas ninfas das províncias mais distintas...
Para logo então, perderem o alaúde, entregando-se com louca azafama à luxúria de seios túmidos, de coxas fogosas até chegarem ao desejado ORIENTE DA VIDA; ávidas e frenéticas, pareciam querer TORNAR...
Hoje decrepitas, ressecadas e maculadas, sem piedade, pela senilidade...envergonhadas e semimortas recorrem ao ONANISMO, humilhadas e silenciosas...
AH, TOLAS E NOSTÁLGICAS...

                                                  
                                          XX


Não sabem que o tempo esfriou seus ímpetos, esfacelou cruelmente com dores e incertezas sua libido, tão inconsequente quanto infantil...
Doentes, frias e fracas seu o único e derradeiro alento pelo qual, pateticamente, anseiam espera por vocês no reino de HADES...
SIM; o calor que anelam ele vos DARÁ, sem dúvida..., mas, será um calor distante, vazio e findável...diverso dos toques de outrora.
Vão... vão... vão...POR QUE HESITAM???   Vão... vão...vão...Hades espera por vocês, PACIENTEMENTE, tocando alaúde...
Tempo.
O ator leva as mãos a boca, acaricia os lábios e diz:
—Minha boca...
QUE MAGIA...
Que enorme magia havia, nos sorrisos falsos que matreiramente forjavas.
Mas hoje, disforme e vazia, TU não mais sorris?
Tens vergonha da tua aparência?
Talvez...
FEIA, MÓRBIDA E MURCHA...
Calada, não desperta mais em outros lábios, o desejo de possuí-la.
Do seu hálito fresco e inebriante, nada restou.
Um BAFIO afugentador, agora reside, amargo; como um castigo...

                                                                     
                                             XXI


Uma solidão robusta e seca, que provoca erosão e fissuras, tão profundas na alma, que selam perenemente sua VERVE ONÍRICA, que sempre arrebatou as mais incautas...
Ah, minha boca... com que sofreguidão buscavas outras bocas; outras línguas, igualmente atrevidas...
Hoje, AD NUTUM, refugia-te ante o mais desavisado e inocente fitar...
Hoje, a tua vergonha é equivalente à tua soberba...
Hoje, tua fuga se iguala a tua antiga rapina...
Que diferença, que triste contraste, desse silêncio de agora com a eloquência dantes.
Há tempos não emites nenhum som de alegria; acabou-se a pândega e o folguedo...
Acabou-se o XAMÃ BRANCO de teu sorriso. Restaram apenas alguns poucos pilares, já escurecidos pelo ETERNO...
Murmuras algo, quase inaudível...
O que é? O que é?
Mais alto! Mais alto!
O que é, O que é?
Mais alto! Mais alto!

Ah, sim...agora entendi é um pedido, uma suplica:
―Thanatos...
Thanatos...
Thanatos...
Thanatos...
Tempo.

                                             XXII


0 homem no palco com roupa de IMPERADOR vira-se de costas para a plateia.
Tempo.
Em seguida, volta-se e grita a plenos pulmões:
—ZEEEEEUS!!!
ZEEEEEUS!!!
ZEEEEEUS!!!
Por quê? Por quê?
Por que, Zeus?
Por que esse tormento...por que esse mortificio?
Poderia eu consumar como FÍDIAS, fez?
Não creio...
Bem sabes, que não possuo destreza para tal; no máximo de minha capacidade, talvez, um busto muito rudimentar...
Tempo.
 O ator prossegue sua melúria:
―E por quê?
Por que; castigar-me assim?
Eu, assim como TU, desfrutei longamente de toda a lascividade possível...
Eu, assim como TU, fui fracamente mundano...
Eu, assim como TU, vi o CÉU em fina estampa na face daquelas a quem enleava...
Aaah...eu também, assim como TU, deixei a dor tempestuosa a alimentar-se vorazmente do pranto pueril das enjeitadas...
Em suma, se fui teu ARAUTO mais inconsequente...teu símio mais TEÍSTA e teu discípulo mais FÚLVIDO...
Por que, então, TU agora vens, sadicamente, castigar-me e assolar-me, condenando-me com esse cruel e inominável fardo, da velhice?
Por quê?
Por quê?
Por quê?

                                           XIII


Tu, Senhor do Universo...ÚNICO; mas que também já foi tantos... tão sábio, tão justo, assertivo e divino...
Serias TU, também vingativo?
Poderia ser TU, Insidioso?
VAIDOSO E VOLÚVEL...
  Tempo.
O ator ajoelha-se lentamente. Instantes depois levanta-se com os braços sobre a cabeça e, por fim, dá voz a sua EPIFANIA:
―SIM...agora compreendo...agora percebo da maneira mais insólita, miserável e cruel que me traístes...
DESGRAÇADO!!!!
DESPOTA INFAME!!!
Nem LOKI, seria tão sórdido...
Nem MEDÉIA, seria tão desatinada...
Nem JASÃO foi tão vil, quanto Tu fostes...
Zeus!!!
ZEUS!!!
ZEEEEEUS!!!
ZEEEEEUS!!!! Vou matá-lo com minhas próprias MÃOS!!
0 ator sai de cena gritando:
―Zeus! ZEEEEUS!! Apareça Zeus!!!
 Zeus! ZEUS!!! ZEEEEEUS!!!!!!!!!!!!
Apareça Zeus!!!
Aplausos.
As cortinas se fecham. Elisabete aplaude sentada tranquilamente, como as demais pessoas, Nestoriano, por sua vez, está de pé aplaudindo e chorando compulsivamente dizendo em voz alta:
—BRAVO!!!!!...
Bravo!! Bravo!! Bravo!!
LINDO!! LINDO!! MARAVILHOSO!!
ISSO FOI LINDO, DEMAIS!!
As pessoas ficam admiradas com a reação, até certo ponto, inusitada de Nestoriano.
Elisabete, também muito surpresa diz:
—Nossa Nestor! Até que, para alguém que estava debochando, você parece ter GOSTADO MUITO mesmo.
Nestoriano empolgadíssimo, dispara:
―GOSTADO?? GOSTADO??
EU ADOREI...
Esse TAL de monólogo é um cara simplesmente fantástico.

                                                                     
                                     XXIV


Elisabete, agora confusa e surpresa, olha para Nestoriano que ainda continua de pé aplaudindo freneticamente e tenta explicar:
―Olha Nestor, a peça foi boa, mas, monólogo não é o nome do ator... monólogo é um tipo de...
Nesse exato instante as cortinas se abrem e o ator volta ao palco para agradecer a plateia.
Absolutamente INCONTROLÁVEL e sem deixar de aplaudir um só instante e gritando BRAVO sem parar, Nestoriano sobe ao palco, sob o APULPO da plateia, e começa a parabenizar o, perplexo, ator:
―MARAVILHOSO, seu monólogo...foi simplesmente maravilhoso!!
O senhor foi simplesmente fantástico, fantástico!!!
Sabe, eu nunca tinha vindo a um teatro antes, mas, de hoje em diante eu prometo que irei assistir a todas as suas peças, seu MONÓLOGO. QUE INTERPRETAÇÃO!!!QUE INTERPRETAÇÃO!!!
Quando será sua próxima apresentação? Onde será? Que maravilha, que talento!!
Dessa vez, é Elisabete que fica CONSTRANGIDA.
Elisabete, mais que depressa, sobe ao palco. Cumprimenta o ator, EN PASSANT, e tenta de todo jeito fazer com que Nestoriano solte a mão do ator, que está aturdido com essa INVASÃO repentina. Sem outra alternativa, ela dá um outro belo beliscão na bochecha de Nestoriano que grita escandalosamente:
―AAAAAAAAAAAAAAAI!!!!!De novo!!!
Enquanto Nestoriano berra Elisabete aproveita para tapar-lhe a boca, enquanto o arrasta sob as vaias da AUDIÊNCIA e do olhar curioso e confuso do ator.

                                                                       
                                            XXV


  A história do pintinho


Depois de conseguir sair à duras penas do teatro levando Nestoriano a reboque, já que ele se recusava a ir embora sem um autografo do ator em sua camiseta, eles param num barzinho para tomar uma gelada.
Após alguns goles TRANQUILIZADORES, Nestoriano reclama:
—Pô, Elisa! Por que é que a gente saiu correndo do teatro, daquele jeito? Não deu nem tempo de pegar um autógrafo com o seu monólogo...
Elisabete levanta o copo e ameaça:
―Ah Nestor... se eu não fosse uma pessoa tão calma e tão controlada e, se, está cerveja não estivesse tão gelada e tão gostosa...   eu juro... eu juro por DEUS que...AAARRRRRGH!!!!
Elisabete enche o copo e toma uma boa golada.
Enquanto isso Nestoriano continua a PENSAR em voz alta:
—MO—NÓ—LO—GO... que nome mais esquisito... será que é RUSSO?
Monólogo... Russo...russo...monólogo...hummmm...
É, é isso...É isso mesmo! Deve ser um nome russo, sei lá. É, só pode ser um nome de origem russa. Eu não sei falar russo, então só pode ser um nome russo...
O que você acha, Elisa? Será que MONÓLOGO é um nome russo, mesmo? Elisabete passa os dedos lentamente sobre a borda do copo e, tentando conter um repentino ataque de BRUXISMO, com um olhar quase assassino para ele, filósofa:
—Sabe Nestor...eu acho que eu vou acabar como a história do pintinho sem cu...
—História do pintinho sem cu? Que história é essa, Elisa?
Enchendo calmamente os copos Elisabete continua:
―Aquela pô...o pintinho não tinha cu, um dia foi inventar de peidar e... BUMMMMMM!!!! Explodiu.
Ah! E antes que eu esqueça Nestor, um brinde ao monólogo!
—Sim Elisa, com certeza UM BRINDE PARA O SENHOR MONÓLOGO, o melhor ATOR que eu vi na minha vida toda.
Eles erguem os copos brindam e caem na gargalhada.
                                
                                                                          FIM