por Flávio Alves Silva
I
Antes de mais nada, devo informar que fui testemunha ocular dos
fatos que irei narrar em seguida, pelo menos da maioria deles.
Servilho Vidracero acreditava estar vivendo uma maré de azar danada, pelo menos era isso o que ele alardeava aos quatro cantos.
Exagero puro, do nosso pequeno herói queixoso. Alias, exagero é coisa muito frequente em sua idiossincrasia, até os dias de hoje.
Faz algumas semanas que ele havia sido
demitido, e bem no dia em que foi receber, como o povo diz, seus "coros
de rato", viu-se vítima de assalto.
― Assaltante mais pé de
chinelo e FILHOD'UMAPUTA é esse?...pensou ele colérico, ― com tanta gente cheia de dinheiro por aí, e esse
desgraçado tinha logo que me escolher, pra roubar.
Essa situação que, num primeiro momento, pode parecer bastante revoltante, e de fato é, e corrobora com a sua ladainha na verdade oculta um, digamos, vacilo pra não dizer um ato tremendamente estúpido e inconsequente do mesmo. Afinal, sair conferindo dinheiro no meio da rua não é algo lá muito sensato. Mas este, como era perturbado de nascença, achou que podia ter contado as notas de maneira equivocada e resolveu recontá-las a caminho de casa.
Quanta inteligência! O mãos-leves teve um dia muito proveitoso e sem muito esforço, ainda mais se levarmos em conta que ele efetuou o roubo sem nem mesmo ter uma arma, apenas com o dedo em riste por debaixo da camiseta surrada e suja.
Coisas boas também aconteciam.
Claro que esse pensamento, otimista, era unicamente meu.
Poucos dias após ser
assaltado, ele conseguiu um outro emprego.
É bem verdade, que essa
nova oportunidade de trabalho ficava bem mais longe que o anterior e, sem querer ser fuxiqueiro
ou contendeiro do diabo, aqui entre nós, ele iria ganhar bem menos nesse do
que ganhava no anterior mas, de qualquer maneira, era melhor que ficar
desempregado e sem dinheiro. Por enquanto, ele estava apenas sem dinheiro.
II
Sendo assim, para não passar um mês inteiro de apuros, ele decidiu então, que iria ao trabalho a pé e guardar todo o dinheiro que o seu novo patrão havia lhe adiantado para a condução, após se inteirar do sinistro e de ouvir pacientemente todo o seu discurso vitimista que, também, lhe era
inerente.
Servilho Vidracero nunca jamais, em nenhum momento da sua vida, pensou em poupar um tostão que fosse. Muito pelo
contrário, após cumprir com todas as obrigações da casa, a qual dividia com a mãe e
quatro irmãs mais novas, gastava todo o restante do seu ordenado, de modo perduláro e inconsequente, em algum TREME―TREME qualquer.
Aliás, caminhar era algo que ele simplesmente odiava. Mas, ele não tinha outra opção e como já relatei aqui, ele era um gastador contumaz. Não tinha carro e nem moto.
Bicicleta? Gostava muito de andar de bike, mas, parou de pedalar desde o dia em
que o seu pai morreu tragicamente, atropelado por um ônibus quando voltava do trabalho. Seu
pai era um homem de poucas palavras e por vezes as pessoas o tomavam por rude, algo que absolutamente ele não era.
Servilho
III
Ele e a mãe de Servilho
Vidracero casaram-se ainda muito jovens. Ele lembra com muita saudade e
carinho do seu pai chegando do trabalho de bicicleta no final da tarde. Seu pai
era um sujeito atarracado de feições duras e olhos miúdos. Tinha os cabelos
lisos muito negros, que gostava de pentear paulatina e cuidadosamente, quase
como um ritual. Servilho vidraceiro sempre admirou os cabelos de seu pai, mas,
por uma questão genética casual ou metafisica, não sei dizer, saiu ou “puxou” o
lado da sua mãe e acabou por ter uma bela cabeleira sarara.
Muitas vezes, pra escapar
da sola, ele pegava dois ou até mesmo três ônibus quando um só bastaria, claro,
se ele se despusesse a uma caminhada de uns vinte ou trinta minutos.
Mas, agora gostando ou
não, ele teria de encarar sua romaria forçada, mas, sem nenhum tipo de
adoração.
Só pra vocês terem uma
ideia da aversão que ele tinha pelas caminhadas, no primeiro dia em seu novo
emprego, ele foi andando com tanta má vontade e apatia que levou quase duas
horas pra fazer o percurso que qualquer pessoa, saudável e com a sua idade,
faria em quarenta ou cinquenta minutos.
IV
Mas, no dia seguinte teve
que mudar sua atitude indolente, mesmo odiando caminhar, se viu obrigado a sair
de casa muito mais cedo, pois, levou um esporro sem tamanho do seu novo patrão
por chegar atrasado logo no seu primeiro dia de trabalho.
As “pedras no
caminho” de Servilho vidraceiro, pelo menos era assim que ele encarava o fato
de ir trabalhar a pé, começavam assim que ele contornava a esquina da rua onde
morava. De cara, havia uma ladeira e, embora tempos mais tarde, ele afirmasse
QUE era uma “SUBIDONA DANADA”, não passava de uma ladeirinha sem vergonha que
não tinha mais que trinta graus de inclinação e pouco mais que uns cem metros
de extensão. Em seguida ele precisava passar por uma rua cheia de vira-latas e, mesmo antes de entrar pela rua ele já começava com a sua lamúria:
Ah! Por que é
prefeitura não faz nada, com esses cachorros do caralho...MALDITOS!! Pensava
ele enquanto caminhava, ou melhor se ralava contra os muros das casas,
covardemente para fugir dos cães, enquanto repetia baixinho: ― Ai meu São Brás... Ai meu São Brás... Ai meu São Brás... Ai meu São
Brás...
V
Não tenho muita
certeza, mas, acho que ele aprendeu essa oração com a sua avó. Na verdade, a
oração era muito mais longa, mas, na hora do medo e do desespero era só essa
parte que ele se lembrava. Na cabeça dele, esse arremedo de eufemia, o protegia
da ferocidade daquela “MATILHA ASSASINA”, que na realidade não passava de meia
dúzias de cães caquéticos mortos de fome que mal tinham forças pra latir,
quanto mais para mordê-lo.
após vencer a subida alpinística e o corredor polonês de cães assassinos,
Servilho vidraceiro passava em frente a uma padaria, quando o cheirinho inconfundível
e delicioso de pães quentinhos, que acabaram de sair do forno naquele exato
instante, fez com que ele virasse o rosto distraidamente e trombasse com uma
moça igualmente distraída que vinha em sentido contrário.
A moça era um tanto miúda e caiu sentada com o encontrão. Servilho vidraceiro ficou totalmente desconsertado, primeiro com a sua falta de jeito e, em segundo com a beleza estonteante da jovem.
A moça era um tanto miúda e caiu sentada com o encontrão. Servilho vidraceiro ficou totalmente desconsertado, primeiro com a sua falta de jeito e, em segundo com a beleza estonteante da jovem.
VI
Realmente aquela
jovem era, muito bonita, linda mesmo.
Servilho vidraceiro ficou estupefato com a beleza daquela jovem e sentiu-se perdido e atordoado, por causa do sorriso, na visão dele, cativante e feiticeiro que ela lhe lançou.
Servilho vidraceiro ficou estupefato com a beleza daquela jovem e sentiu-se perdido e atordoado, por causa do sorriso, na visão dele, cativante e feiticeiro que ela lhe lançou.
Todo trêmulo,
estendeu-lhe a mão para ajudá-la a se levantar.
Aqui seguem-se os pensamentos de Servilho vidraceiro, durante aqueles momentos, contados a mim pelo próprio. Claro, que como isso aconteceu há muito tempo, algumas partes eu já esqueci, mas, garanto que serei o mais fiel, imparcial, preciso e não tendencioso possível, como é de meu feitio:
Aqui seguem-se os pensamentos de Servilho vidraceiro, durante aqueles momentos, contados a mim pelo próprio. Claro, que como isso aconteceu há muito tempo, algumas partes eu já esqueci, mas, garanto que serei o mais fiel, imparcial, preciso e não tendencioso possível, como é de meu feitio:
—Deus do Céu! Como
é linda! Esses olhos...que maravilha!
Que paz que eles
transmitem. E, esse sorriso!...Que sorriso é esse?!
Deus do Céu! Será que eu MORRI, com a trombada, e o Senhor me mandou o anjo mais belo e formoso, para me receber portas do Céu?
Deus do Céu! Será que eu MORRI, com a trombada, e o Senhor me mandou o anjo mais belo e formoso, para me receber portas do Céu?
Mas, o encanto e
o delírio sonhador de Servilho vidraceiro se desfez num instante, como uma flor
dente-de-leão ao vento, com a intromissão estrondosa de uma voz, fria e
insensível, que teve o mesmo efeito, pra ele, que o soar da sétima trombeta,
teria na alma dos pecadores:
VII
―Minha filha! Gritou a tal voz, que logo em seguida
fulminou
Servilho vidraceiro com estas doces palavras:
—Seu idiota! Tá cego, caralho?! Vê se olha por onde anda, Imbecil!
Na realidade, isso ocorreu tão rápido e ele ficou tão encantado e abobalhado com a bela jovem que não conseguiu dizer uma sílaba sequer.
Tudo o que guardou daquele momento foi a imagem divina daquela jovem encantadora, de olhos cor de mel e um sorriso que ele descrevia, em mais um de seus exageros, como sendo o do próprio Deus.
Servilho vidraceiro com estas doces palavras:
—Seu idiota! Tá cego, caralho?! Vê se olha por onde anda, Imbecil!
Na realidade, isso ocorreu tão rápido e ele ficou tão encantado e abobalhado com a bela jovem que não conseguiu dizer uma sílaba sequer.
Tudo o que guardou daquele momento foi a imagem divina daquela jovem encantadora, de olhos cor de mel e um sorriso que ele descrevia, em mais um de seus exageros, como sendo o do próprio Deus.
Servilho vidraceiro
chegou ao trabalho completamente absorto com aquele esbarrão casual e banal, mas,
que ele encarou como “divino e doce encontro”. Olha, só não caio na gargalhada contando
isso, porque sou inconspícuo ao extremo.
Posso garantir,
que tudo o que houve no restante do dia
foi relegado sua
mente. Nem a tiração de sarro dos novos colegas de trabalho, por causa de seu estranho
apelido de Servilho vidraceiro, já que de vidraçaria nada sabia. Mais tarde, prometo
voltar a esse assunto e explicarei o porquê do apelido.
VIII
Ele só conseguia
pensar, sussurrar e remoer a mágica imagem
da bela jovem
desconhecida. Só saiu de seu estado de transe quando chegou a hora de ir
embora. Ele nem se preocupou em trocar de roupa, pois, a possibilidade de
reencontrá-la o impulsionava.
Estava ébrio de paixão, transbordando de sentimentos coronários...mesmo porque,
como tinha um comportamento frívolo que beirava a boçalidade, nunca havia
se envolvido ou
gostado de verdade de ninguém.
“Então, saiu
como um cego sem rumo, claudicante...vagando desatinado, em busca da Luz original...”
Nossa! Isso foi de improviso e ficou lindo demais! Sabe, acho que tenho vocação
poética...
Bem, mas, não posso
me empolgar, então; vamos retomar a história do Servilho vidraceiro. Indiferente
a tudo e a todos, percorreu o caminho até chegar em frente a padaria onde parou e se pôs a esperar, numa tola, mas, compreensível esperança de que ela fizesse
aquele caminho todos os dias para ir e vir do trabalho e, em consequência
disso, fatalmente teria que passar em frente a padaria, onde ele estava agora, plantado,
como um centurião só que sem ninguém para comandar.
IX
Nos primeiros
minutos a expectativa e a ansiedade mal
o deixavam respirar.
Roía as unhas vorazmente, roeu tanto
que ficou com
alguns dedos sangrando. Também coçava a cabeça sem parar, ao ponto de as pessoas
que passavam, e à revelia olhavam para a sua figura ansiosa, chegassem a pensar
que estava com piolhos ou coisa parecida. Esfregava as mãos compulsivamente num
frenesi realmente agoniante, enquanto mentalmente repetia pra si mesmo:
―Já, já ela vai passar...já,
já...
Era a mente
piedosa criando um alento para um esperançoso e descompassado coração.
Mas, até esse
fio de esperança se partiu, quando a segunda meia hora juntou-se com primeira
meia hora e a primeira hora se juntou a segunda hora e, quando ele se deu conta
haviam se passado mais de três horas, a padaria já tinha até fechado.
Por fim, deu-se
por vencido, e convencido do fracasso da sua ideia mirífica, porém imbecil, levantou-
se vagarosa e doloridamente, pois tinha ficado ali sentado um tempão e tomou o rumo
de casa.
X
Seria impossível,
para mim, dizer quantas vezes Servilho vidraceiro virou a cabeça para olhar
para trás, mas, uma coisa posso afirmar, ele chegou em casa nessa noite com um torcicolo
daqueles. E, é desnecessário, também, dizer que não dormiu naquela noite.
Quando o dia começou
a espreguiçar-se, lentamente no horizonte com os primeiros raios de sol,
encontrou Servilho vidraceiro já de pé e com a aparência de um zumbi.
Como já foi
dito, ele sequer pestanejou durante a noite toda. Só pensando no seu “amor”
temporão.
Sua mãe, que
sempre acordava cedo, ficou surpresa ao encontrar o filho já de pé e de roupa
trocada. Pois, sempre teve que ir até o quarto do filho e bater várias e várias
vezes na porta para acordá-lo. E, só depois de quase derrubar a porta de tanto
bater, ouvia lá de dentro a voz rouca e sonolenta dele resmungando:
―Já tô
levantando manhê... Já acordei faz tempo... Era um embusteiro de primeira.
Depois, já na cozinha
fazendo o café, ela perguntou preocupada:
―Tudo bem,
filhote?
Tá...Tu... Tudo
bem... Respondeu ele, depois de um bom tempo.
XI
Saiu, nesse dia,
sem dizer mais nada e sem tomar o seu habitual café da manhã. Deixando a mãe
ainda mais preocupada e as irmãs confusas e surpresas, ao verem o irmão saindo tão
cedo.
Naquela manhã
quase não deu conta da “subida”, parou várias e várias vezes para retomar o
fôlego. Parecia que algo estava lhe roubando o oxigênio, as pernas bambeavam
como as de
um passista
depois de sambar por horas a fio. Mas, naquela passarela vazia não havia nem confete
nem alegria.
Quando
finalmente chegou ao tão famigerado, corredor dos cães assassinos, (puro
delírio dele como eu já disse) teve vontade atiçá-los contra si mesmo pare que estes, enfurecidos e famintos o
devorassem ali mesmo onde tinha se prostrado. Maior exagero impossível, mas,
como já relatei aqui Servilho vidraceiro era preguiçoso, vitimista e
excessivamente dramático. E, aproveitando o ensejo vou lhes contar agora o
porquê do seu apelido peculiar.
Na época dos
acontecimentos até agora narrados, por mim de maneira absolutamente imparcial e
discreta, ele tinha por volta de vinte e cinco anos mais ou menos, mas, quando
tinha por volta de 6 anos de idade a sua família moravam numa casa que era vizinha
XII
a de um senhor
que trabalhava como o faz-tudo da vizinhança. As pessoas o chamavam de Seu
Servilho, mas, ninguém sabia ao certo qual era o seu verdadeiro nome. Seu
Servilho, entre outras coisas, reparava janelas, aquelas janelas antigas de
ferro pintadas com zarcão para não enferrujar. Apesar da maioria das casas do
bairro já ter janelas com moldura de alumio, na vizinhança ainda existiam
muitas casas de moradores mais antigos que ainda mantinham suas janelas antigas
de ferro. E, vez ou outra, a molecada que jogava bola nas ruas, acabava
chutando uma bola por cima das cercas e muros e acabava quebrando um vidro ou
outro. Quando isso acontecia, era o Seu Servilho que todos chamavam. Por isso
mesmo, seu Servilho sempre tinha uma lata com massa de vidraceiro em casa. Numa
dessas vezes, quebraram um vidro da janela de uma casa ao lado. Seu Servilho
era um senhor já com uma certa idade, na verdade ele já estava senil, então ele
sempre esquecia uma coisa ou outra nos serviços que prestava para a vizinhança.
Nesse dia em que ele foi fazer a troca desse vidro, acabou esquecendo a lata
com massa que era usada para prender os vidros nas janelas.
XIII
Nesse dia o
menino, que brincava na rua, viu a lata no quintal do vizinho que estava com o
portão aberto e curioso destemido, como toda criança normal, resolveu ver o que
tinha lá na tal lata. Quando olhou dentro da lata e viu a massa cinza e achou que
era o “mingau de cachorro” (1), que o pai fazia e que ele adorava. Meteu então,
a mão dentro da lata e pegou um pouco da massa, que só endurecia depois de
misturada com o catalisador, enfiou na boca e já saiu cuspindo e chorando alto.
Claro que todo mundo na rua ficou sabendo da história e desde então, todos, até
seus familiares, só o chamavam de Servilho vidraceiro.
Quando chegou em
frente a padaria sentiu uma certa dose
de raiva, ao
recordar o quanto tinha esperado em vão.
Mas, logo que
sentiu o cheirinho de pão quentinho esqueceu
o fracasso do
dia anterior. Sentiu-se também, levemente reconfortado, mas, logo em seguida ficou terrivelmente desolado, pois, ao olhar para o relógio viu que se não se
apressasse chegaria novamente atrasado ao trabalho, algo que seu novo patrão
não perdoaria novamente.
( 1) Mingau de cachorro é uma receita tradicional do nordeste brasileiro que possui algumas variações, mas, a receita original é feita apenas com farinha de mandioca, água, sal é pimenta do reino.
XIV
E num rompante, súbito
e desmedido, de cólera amaldiçoou o momento em que a vida, por alguma vingança mesquinha,
havia jogado sobre os seus ombros o fardo de sustentar uma família, após a morte
trágica do seu pai. Bom, eu até poderia ficar quieto, na minha como de costume,
mas, a verdade era que ele não sustentava família nenhuma, apenas ajudava nas
despesas da casa. Fico tranquilo e seguro para afirmar que, em casa, ele dava
mais despesa do que contribuía. Sua mãe recebia a pensão do seu marido e ainda
tinha um dinheirinho guardado da indenização, que a empresa de ônibus foi
condenada a pagar, pelo atropelamento e morte do pai de Servilho vidraceiro.
Mas, o certo é
que agora, ele não tinha tempo nem esperar e nem para blasfemar. Sem outra alternativa
seguiu a passos largos para o trabalho. Sentia-se, agora, mais incapaz e acuado
do que nunca. Aquele foi um dia de silêncio e frustração, para o coração cheio
de paixão e expectativas quiméricas de Servilho vidraceiro
Trabalhou de
maneira dispersa e tudo que ele fez, nesse dia, foi de modo automático e inconsciente.
Sentiu-se mal o dia inteiro, dor de cabeça, dor de garganta, dor de barriga e
tonturas foram apenas algumas das muitas enfermidades que o atormentaram
naquele dia interminável. Contou os segundos, os minutos e as horas com uma angústia
realmente enlouquecedora.
XV
Não parou para almoçar.
Tinha tudo planejado. Adiantar o serviço o máximo possível, para não ter nada
por fazer perto da hora de ir embora.
Nem é preciso
dizer que outra vez saiu sem tomar banho
ou trocar de
roupa. Era um idiota e sem noção, mesmo. Nem atinou para o fato de estar todo sujo
e fedorento e, que, se conseguisse encontrar com a bela jovem ia causar uma
péssima impressão. Foi correndo, no seu ritmo é claro, para chegar o mais cedo possível
em frente a tal padaria. Imaginou que no outro dia quando chegou ela já teria passado.
Novamente se pôs
de prontidão, mas, dessa vez com a certeza de que a veria novamente.
Decidiu que não
olharia para o relógio, deixou o seu no serviço, para que a consulta do tempo não
o mortificasse. Mas, a ansiedade era tanta que, apenas cinco minutos após chegar
ali, virou-se para olhar o relógio da padaria. O relógio não estava muito visível
e ele precisou dar alguns passos e acabou de fato entrando na padaria para ver
melhor. Malditos passos e maldita ansiedade!!! Diria ele, momentos depois. Após
conferir o horário, quando voltou para o seu posto de vigilância, viu seu
“AMOR”, sua paixão acachapante descendo pelo outro lado da rua.
XVI
Ficou tão
perplexo e desapontado, consigo mesmo, que não conseguiu mover-se um palmo ou
mesmo gritar para chamar a atenção da moça. Com os olhos marejados, a viu desaparecer
pelas esquinas.
Servilho
vidraceiro encarou aquela situação pueril, como o pior momento da sua vida. Não
vou nem comentar...
Após ficar alguns
instantes, absolutamente estático, com o olhar fixo, mas, sem enxergar nada nem
ninguém e com uma expressão tão desolada que até se tornava tocante, se pôs a caminhar
tão morosamente que empreenderia maior velocidade se estivesse rastejando. Tudo
o que tinha na mente era uma raiva cega, surda e impiedosa contra Deus e toda a
humanidade. Agora eu te pergunto, amigo leitor, qual é a culpa da humanidade pelo
comportamento, quase limítrofe, desse idiota? E outra, por que é que esse
desatinado, quer atribuir ao Senhor nosso Deus a sua insanidade. Se eu fosse Deus, eu mandava esse
boçal direto pro inferno e sem escalas. Sorte dele, que eu não sou Deus, mas,
sim um ser humano altruísta e muito tolerante. Na verdade, a minha vontade é de
nem dar continuidade a essa história, mas, vou dar seguimento em respeito a
você, que chegou até aqui.
Bem, nessa
noite, ele chegou em casa muito depois das horas mortas da noite.
XVII
Perambulou tanto
que quase se perdeu. A sua mãe o esperava muito preocupada. Mas, a verdade é
que ele nem ouviu a sua
ladainha, nem os
solavancos, nem as indagações ou acusações de que ele provavelmente estaria
envolvido com drogas e que iria destruir a sua vida e que ele havia se tornado um
desgosto para ela, que sempre lutou tanto por ele, e não sei mais o quê... Resumindo,
a mulher estava delirando, não era pra tanto. Ele tinha a quem puxar, e, não
era só pelo cabelo.
A mulher estava realmente
enfurecida, pois, continuou a
Tagarelar e esbravejar
mesmo depois que Servilho vidraceiro lhe bateu a porta na cara, com sonora
rudez.
Por algum
motivo, o qual confesso desconhecer, nessa noite ele teve algumas horas de um
bom sono, ainda que tenham sido não mais que três.
Quando acordou
não havia, ninguém em casa. Suas irmãs já tinham ido para a escola e sua mãe
tinha foi até a igreja para pedir conselhos espirituais ao padre Nicanor, para
tentar “livrar” o filho das drogas. Se, Servilho vidraceiro tivesse, naquele
momento, a mínima ideia onde estava a sua querida e cuidadosa mãe, e o que pretendia fazer, com certeza questionaria:
XVIII
—Por que é que Deus; permite esse tipo de coisas?
Servilho vidraceiro
parecia estar resignado quando se pôs a
caminho do trabalho. E, de certa maneira, quem o visse, e conhecesse a
fundo toda a história, poderia dizer que ele estava contente ou até mesmo feliz.
Venceu a subida
não tortuosa, tranquilamente. Entrou destemido pela rua dos cães mortais, que
vieram desesperados comer pedaços de pão, lambuzados em caldo de carne, que ele
trouxe nos bolsos. Falei que esse cara era estranho.
Quando se
aproximou da bendita padaria, o cheirinho de pão quentinho o deteve por alguns
segundos, mas, logo continuou rumo ao trabalho. Já no trabalho, seu patrão lhe
disse
que precisaria
ir até uma cidade distante, para resolver alguns
negócios e que
como só voltaria tarde da noite, ou talvez até mesmo no dia seguinte, o
encarregaria de fechar o estabelecimento e depois fizesse a gentileza de deixar
as chaves em sua caga com a sua esposa. Algo que ele achou muito esquisito,
pois, era o funcionário mais novo ali. Na verdade, o homem queria mesmo era ver
se ele poderia confiar naquele funcionário, calado e esquisito.
Faltando, mais
ou menos, acabar o para o expediente
Servilho vidraceiro
já estava cerrando as portas do estabelecimento, com a surpreendente conivência
corporativa dos novos companheiros de trabalho é obvio, afinal, quem não quer
sair do trabalho meia hora mais cedo.
XIX
Correu o mais rápido que pôde, para entregar as chaves na casa do seu patrão e se livrar logo dessa tarefa incomoda. Como era um sujeito de muita sorte, a mulher não estava em casa. Emputecido, ele praguejou, sem atinar para o fato de estar meia hora adiantado:
―AONDE É QUE ESSA PUTA FOI?! Por que não está em
casa?
Atormentado
deixou as chaves com uma vizinha e foi
zunindo esperar
pela sua utopia em forma de mulher.
Mais vez,
Servilho vidraceiro estava lá, como um tolo, a esperar. Só que dessa vez, tinha
a sensação que conseguiria realizar seu intento patético.
Enquanto
esperava começou a pensar no que dizer, não queria, de jeito nenhum, que ela
achasse que ele era um bocó qualquer. Não queria trocar os pés pelas mãos. Algo
difícil, primeiro porque ele era O BOCÓ, segundo porque era tão feio que
parecia estar do avesso então, trocar os pés pelas mãos, no caso dele, não
faria a menor diferença.
Nem bem começou a organizar as ideias, quando ao
virar o rosto, a viu vindo pela rua. Seu coração quase saiu pela boca enquanto suas
mãos se tornaram gélidas.
XX
Ela vinha pelo outro da rua quando de repente atravessou para o lado onde ele estava, agora suando baldes.
Obrigado, meu
Deus! Obrigado, meu Deus! Era tudo o que conseguia balbuciar.
A medida em que
ela se aproximava, mais trêmulas iam ficando as suas pernas finas e menos
oxigênio ele conseguia respirar.
E, quando ela estava
a poucos passos dele, suas vistas escureceram e ele simplesmente, caiu
desmaiado no chão feito um saco de estrume. Dá pra acreditar?
Ao perceber que
iria, inevitavelmente, APAGAR, Servilho vidraceiro ainda teve um milésimo de
segundo para questionar, cheio de amargura:
―Por que é, que Deus; permite esse tipo de coisa?
XX
Ao acordar, quase sufocado por um trapo embebido em álcool
Ao acordar, quase sufocado por um trapo embebido em álcool
que alguém
apertava contra o seu nariz, Servilho vidraceiro viu muita gente a sua volta
inclusive, quem diria, sua amada. E, a simples visão da jovem já foi o suficiente
para fazê-lo levantar-se de um só golpe.
Já de pé, ereto
e teso, segurou as mãos da jovem entre
as suas que, surpresa,
deu vasto sorriso infantil.
Tomado de súbito,
por uma coragem avassaladora, Servilho vidraceiro finalmente manifestou tudo
aquilo o que sentia:
Eu te amo! Te amo...Com
todo amor do meu coração!
Sabe, foi tão
verdadeira e pura a maneira como disse aquelas palavras, e, tanta entrega e
paixão haviam em seu tolo coração que estas palavras seguintes ditas pela mãe
da jovem são, no mínimo, insensíveis e cruéis:
—O que é que
você está dizendo, seu idiota?
Servilho vidraceiro
não se perturbou e reiterou, para a mãe, sua
paixão pela filha:
—Senhora, eu
estou perdidamente apaixonado pela sua filha e quero me casar com ela!
A mulher possessa
e sem piedade
esbraveja:
Deixa de falar besteira,
imbecil? Minha filha não pode se casar com você nem com ninguém.
XXI
Servilho vidraceiro
já ia começava a mexer os lábios, para questionar, quando mulher sentenciou:
—Ela tem deficiência
intelectual grave seu maluco...ela tem a mentalidade de uma criança de 3 anos.
Servilho vidraceiro
ficou tão pasmo que não ofereceu a menor resistência, quando a megera, na opinião
distorcida dele, arrancou-lhe as mãos da
jovem, as quais ele ainda segurava.
E, como um náufrago
impotente, ele viu a sua “tábua de salvação” se afastar lentamente.
Enquanto
rebocava a filha, que, em nenhum momento se deu conta do que estava acontecendo,
a mulher resmungava:
—Mas, é cada um
que me aparece! Eu devia era chamar polícia,
isso sim! Onde é
que já se viu uma coisa dessas... De onde é que saiu esse feioso esquisito?
Servilho vidraceiro
ficou ali por um bom tempo e nem
percebeu as
pessoas que presenciaram toda aquela cena e caçoavam dele, agora.
Eu sei que você
que está lendo essa narrativa, moderada e fidedigna, deve estar agora com um pouco
de dó ou mesmo compaixão, do Servilho vidraceiro. Confesso que eu também fiquei
sensibilizado, com esse desfecho surreal dessa história, mas, também não posso
me abster de ressaltar um ponto crucial que, talvez, possa ter passado desapercebido
por você e com certeza passou batido por ele. Por causa da sua paixão irracional,
deslumbre, pureza de espirito, falta de lucidez ou apenas por ele ser um
completo retardado, ele não notou que todas as vezes em que viu ou trombou com
a sua amada, entre aspas, ela estava sempre acompanhada pela mãe e, que, a
mesma sempre a levava pela mão. Mas, aí já seria exigir muito, do meu pupilo mentecapto.
XXII
Depois de ficar muito
tempo ali parado, com as suas mãos estendidas e curvado como se tivesse sobre
os ombros o peso de
uma tonelada, ele
resignou-se a ir embora, afinal as chacotas já haviam cessado e as outras pessoas
já tinham voltado as suas vidas e rotinas repletas de banzo.
Nunca mais
voltou a fazer aquele trajeto trágico.
Para ir
trabalhar fazia um caminho, que era quase duas vezes mais longo e, por isso,
teve que aprender a acelerar o passo para não chegar atrasado. Lá, no serviço os colegas ficaram sabendo do acontecido, eita povo fofoqueiro, e começaram a chamá-lo de ROMEU ADORMECIDO. Pra sorte dele o apelido não pegou e logo depois foi esquecido, mas, ele ficava bem bravo com isso.
Em casa sua mãe, cada vez mais convencida de sua dependência química, fazia de tudo para levá-lo
à igreja para se confessar com o padre Nicanor que, vendo o desespero
da pobre mulher, chegou a sugerir uma sessão de exorcismo. Ai, ai... É como diz
o ditado, quem sai aos seus, não degenera.
Mas, apesar de
tudo, uma coisa posso afirmar, desse dia em diante ele fazia questão de parar, mesmo que fosse por alguns instantes, na frente de qualquer padaria que visse pelo
caminho.
Pois, toda vez
que ele sentia o cheirinho gostoso de pão
quentinho,
Servilho vidraceiro acreditava ser, A PESSOA MAIS AMADA DESSE MUNDO DE MEU
DEUS.
FIM

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